“É você cuidar da criança até para depois que a gente não tiver mais aqui.” A frase resume o propósito que levou o advogado e procurador municipal de Ibirité, Charles Drumond, a criar o INTEA, uma plataforma digital que reúne informações e busca aproximar os profissionais envolvidos no acompanhamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Ele conta que a ideia nasceu dentro de casa, a partir das dificuldades enfrentadas por Charles no acompanhamento dos dois filhos, Miguel, de 14 anos, e Pedro, de 10. Miguel recebeu o diagnóstico aos seis anos e está no nível 1 de suporte. Pedro foi diagnosticado aos quatro anos, está no nível 3, é não verbal e possui deficiência intelectual.

A rotina de consultas, terapias e escola fez Charles perceber um problema que, segundo ele, ultrapassa a realidade da família: diferentes profissionais acompanham a mesma criança, mas nem sempre conseguem trabalhar de forma integrada. “São vários profissionais que atuam na terapia deles e eles não conversam para estabelecer um plano terapêutico”, relata.

Conforme Charles, a família chegou a solicitar que a clínica responsável pelo atendimento dos meninos fosse até a escola para construir estratégias de desenvolvimento em conjunto. Segundo Charles, isso não ocorreu. Ele também identificou dificuldades para estabelecer metas comuns e acompanhar os resultados de cada etapa do tratamento.

Um episódio durante o processo de desfralde de um dos filhos reforçou essa percepção. Diferentes profissionais trabalhavam a mesma questão, mas sem necessariamente compartilhar um planejamento. Foi a partir dessas experiências que Charles decidiu criar uma ferramenta capaz de organizar as informações e facilitar a comunicação entre os envolvidos.

Um prontuário digital

O projeto começou a ser desenvolvido em 2024 e foi concluído em 2026. Segundo Charles, o INTEA foi concebido como um prontuário digital integrativo, reunindo em um único ambiente informações que normalmente ficam espalhadas entre documentos físicos, prontuários, laudos, relatórios escolares e registros de terapia.

A plataforma permite armazenar dados desde a primeira anamnese, passando por laudos e registros de evolução, até as metas definidas para o acompanhamento. Profissionais autorizados também podem registrar observações, avanços e dificuldades. “Todas as vezes que você vai no médico novo, num terapeuta novo, tem que levar todos os documentos”, explica Charles.

A proposta é evitar que a mudança de profissional, escola ou município faça a família reconstruir toda a trajetória de atendimento. O sistema também prevê o acompanhamento de metas e resultados, com possibilidade de visualizar a evolução por meio de gráficos.
Atualmente, o aplicativo está disponível gratuitamente para as famílias. A possibilidade de integração com a rede pública ainda está em fase inicial e depende da avaliação das necessidades dos serviços e dos usuários.

Da experiência familiar ao futuro

A criação do INTEA também levou Charles a uma descoberta pessoal. Depois dos diagnósticos dos filhos, uma médica recomendou que ele procurasse um psiquiatra e um psicólogo para uma avaliação. O diagnóstico de autismo também foi confirmado. Charles passou então a compreender de outra maneira algumas experiências da própria adolescência. Entre os 12 e os 17 anos, morou em João Monlevade, onde participou de atividades de teatro ao lado da amiga Cíntia Carvalho. “Antes disso eu era muito introspectivo. Então isso me ajudou demais”, afirma.

Apesar de ter surgido da rotina dos filhos ainda crianças, Charles pretende que o INTEA acompanhe a pessoa autista ao longo da vida. A preocupação está especialmente nas transições entre infância, adolescência e vida adulta, quando podem mudar escolas, profissionais, serviços e até municípios de atendimento.

Para ele, manter um histórico organizado pode representar uma continuidade na trajetória da pessoa, inclusive no futuro, quando os pais já não estiverem presentes para organizar documentos, explicar necessidades e acompanhar os serviços. “É você cuidar da criança até para depois que a gente não tiver mais aqui”, reforça.

O criador também vê possibilidade de utilização da ferramenta pelo poder público, conectando informações de áreas como saúde, educação e assistência social. Uma eventual utilização desse tipo, porém, exigiria regras específicas de acesso, segurança e proteção de dados, por envolver informações pessoais e de saúde.

Plataforma é apresentada à Prefeitura de João Monlevade

A proposta de utilização do INTEA em João Monlevade foi apresentada à Prefeitura na terça-feira (22), durante reunião com Charles Drumond e representantes das secretarias municipais de Assistência Social, Saúde e Educação. O encontro, conforme Charles, teve como objetivo apresentar a plataforma e discutir de que maneira ela poderia ser dimensionada para atender às necessidades das famílias neurodivergentes do município.

Segundo ele, a administração municipal deverá realizar levantamentos preliminares para identificar a demanda e avaliar a possibilidade de utilização integrada do sistema. A proposta em discussão envolve, além de saúde, educação e assistência social, áreas como cultura e esporte. Segundo Charles, um novo encontro está previsto para o final de outubro, quando os dados levantados poderão ser analisados e os próximos passos definidos.

O que é o INTEA?

O INTEA é uma plataforma digital criada por Charles Drumond para integrar informações relacionadas ao acompanhamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista. A ferramenta reúne dados como anamnese, laudos, registros de evolução e metas terapêuticas, além de prever recursos para comunicação entre profissionais e acompanhamento dos objetivos definidos para cada pessoa.

O projeto foi desenvolvido entre 2024 e 2026, a partir da experiência de Charles com os dois filhos. O criador pretende apresentar a plataforma a municípios interessados, tendo João Monlevade como uma das primeiras possibilidades de implantação. Conheça o app: Intea.app