A vitória de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais em João Monlevade, depois de começar a disputa em desvantagem no município, foi resultado de uma mobilização que combinou trabalho nas ruas, atuação nas redes sociais e redução da abstenção. Essa é a avaliação do presidente municipal do PT, Lucas Costa Bicalho, o Lucão, que analisou o desempenho eleitoral da legenda, as transformações econômicas da cidade e os desafios políticos para os próximos anos.

Ele conversou com o editor Erivelton Braz, no programa de entrevistas do jornal A Notícia e analisou o resultado das urnas. No primeiro turno, Lula recebeu aproximadamente 19 mil votos em João Monlevade, contra 21 mil de Flávio Bolsonaro. No segundo, o candidato petista virou e chegou a 24,3 mil votos, enquanto o adversário obteve aproximadamente 22,4 mil. A diferença, que inicialmente era desfavorável, transformou-se em uma vantagem de quase dois mil votos.

Para Lucão, um dos fatores decisivos foi a redução da abstenção. Entre os dois turnos, o número de eleitores que deixaram de votar caiu de aproximadamente 14,3 mil para 12 mil. Ele também destacou a participação de pessoas que moram fora do município, mas retornaram para votar, e atribuiu ao prefeito Laércio Ribeiro (PT) um papel importante na articulação de lideranças, militantes e apoiadores.

O dirigente considera que o resultado também reforça a presença eleitoral do PT na cidade. Ele relaciona os votos recebidos por Lula ao desempenho de Laércio nas eleições municipais de 2024, quando o prefeito foi reeleito com aproximadamente 25 mil votos, apoiado por uma coligação de 14 partidos. Na avaliação de Bicalho, os números demonstram a existência de uma base política que ultrapassa os limites da militância partidária.

Redes sociais

Outro aspecto destacado na entrevista foi a mudança na estratégia de comunicação do partido. Tradicionalmente identificado com a mobilização presencial, o PT passou a utilizar as redes sociais não apenas como espaço de divulgação, mas também como instrumento de organização e convocação de apoiadores.

Segundo Lucão, a campanha mostrou que o ambiente digital pode impulsionar a participação nas ruas. Um dos exemplos foi a criação da frente “Juventude Mineira com Lula”, que aproximou o partido de grêmios estudantis e diretórios acadêmicos. A mobilização também buscou ampliar o diálogo com mulheres, jovens, idosos, pessoas com deficiência e movimentos de igualdade racial.

O presidente do PT defendeu ainda que João Monlevade aproveite melhor o potencial tecnológico da Ufop, especialmente na formação de profissionais e no desenvolvimento de atividades relacionadas à inteligência artificial. Para ele, a qualificação de mão de obra e a aproximação entre universidade, poder público e setor produtivo são caminhos importantes para preparar a cidade para as novas exigências do mercado de trabalho.

A entrevista também trouxe uma reflexão sobre as transformações econômicas e sociais de João Monlevade. Historicamente ligada à atividade siderúrgica e às lutas sindicais dos trabalhadores da antiga Belgo-Mineira, atual ArcelorMittal, a cidade passou por mudanças profundas na composição de sua força de trabalho.

Lucão observou que a automação industrial reduziu significativamente o número de trabalhadores diretamente ligados à produção nas usinas. Segundo sua avaliação, o contingente de operários fabris, que já ultrapassou 10 mil pessoas em décadas passadas, hoje representa menos de mil trabalhadores na estrutura industrial direta. Com isso, o conceito de classe trabalhadora também se ampliou. Microempreendedores individuais, comerciantes, profissionais autônomos e prestadores de serviços passaram a ocupar espaço cada vez mais importante na economia local.

Na avaliação do dirigente, essa mudança exige que o partido atualize seu discurso e suas propostas. Além das pautas historicamente relacionadas aos direitos trabalhistas, ele defendeu atenção à desburocratização, ao fortalecimento dos pequenos negócios e à criação de condições para a geração de emprego e renda.

Oposição

Questionado sobre as críticas de integrantes da oposição, entre eles o vereador Sinval Dias (PL), que apontam um suposto enfraquecimento do PT, Bicalho contestou a avaliação e citou o resultado das urnas como demonstração da força eleitoral da legenda.

Ele afirmou que a orientação do partido é evitar confrontos improdutivos e concentrar a atuação na apresentação dos resultados da administração municipal. Afirmou também que a divergência política não deve se transformar em intolerância ou impedir o diálogo institucional.

Investimentos e sucessão de 2028

Na avaliação do presidente do PT, o volume de obras e investimentos em andamento em João Monlevade também terá peso no debate político dos próximos anos. Ele destacou um conjunto de ações em andamento ou concluído, estimado em aproximadamente R$50 milhões, que inclui a construção do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), no bairro Areão, com previsão de R$25 milhões em recursos, a conclusão da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) e a ampliação da estrutura municipal de saúde, com novas unidades básicas e o Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil (CAPS IJ).

Mas é a sucessão municipal que começa a ganhar espaço nas conversas políticas. Impedido de concorrer a um terceiro mandato consecutivo, o prefeito Laércio deixará de ser candidato em 2028, abrindo uma disputa pela continuidade do projeto político do PT na Prefeitura.

Segundo Lucão, Monlevade é a segunda maior cidade do estado governada pelo PT e a legenda pretende discutir os nomes no momento adequado, respeitando os procedimentos internos, com possibilidade de prévias e posterior convenção. A intenção, conforme o dirigente, é construir uma candidatura competitiva, tanto ao Executivo quanto ao Legislativo, capaz de reunir o PT e os demais partidos que integram a frente política local.