Acolher, ouvir e oferecer caminhos para recomeçar. Esse é o propósito da Pastoral do Povo de Rua de João Monlevade, iniciativa da Igreja Católica que atua junto a pessoas em situação de vulnerabilidade social. Além de oferecer alimentação, o trabalho tem outros propósitos. Um deles é restaurar vínculos e ajudar quem enfrenta a realidade das ruas a recuperar a dignidade e a autonomia.

A pastoral começou a ser organizada após a chegada do padre Elson Vital ao município. Segundo o religioso, ao perceber a presença frequente de pessoas em praças e outros espaços públicos, ele mobilizou a comunidade para estruturar uma rede de acolhimento. Com mais de 31 anos de sacerdócio e experiência na Cáritas Diocesana, Padre Elson articulou uma formação com a Cáritas Minas Gerais para preparar os voluntários.
Conforme o padre, a mobilização reuniu inicialmente 70 interessados, dos quais 46 participaram da capacitação. Desde então, os grupos passaram a realizar o cadastramento e o acompanhamento das pessoas atendidas, buscando conhecer suas necessidades e as circunstâncias que as levaram à situação de vulnerabilidade.
O padre Elson dá detalhes do trabalho: “Para trabalhar com o povo de rua, a pessoa precisa ter disposição para se aproximar, conversar e compreender a realidade de cada um. Não basta ter vontade de ajudar. É preciso gostar de estar com essas pessoas”, destaca o padre.
Acolhimento
O levantamento realizado pela pastoral identificou aproximadamente 16 pessoas que vivem efetivamente nas ruas de João Monlevade. O número, entretanto, não representa todas as pessoas em situação de vulnerabilidade que circulam pelos espaços públicos e enfrentam problemas como dependência de álcool e outras drogas, conflitos familiares, desemprego e falta de moradia.
Conforme o Padre Elson, o atendimento inclui a distribuição de alimentos, mas também envolve escuta, orientação e acompanhamento. Os voluntários procuram identificar as necessidades de cada pessoa e, quando existe interesse, auxiliam na busca por tratamento, oportunidades de trabalho e alternativas de moradia.
Algumas pessoas já foram encaminhadas a instituições de recuperação, entre elas a Comunidade Terapêutica Bom Samaritano. A pastoral também conta com o apoio de comerciantes e colaboradores para buscar oportunidades de trabalho e contribuir com a retomada da autonomia dos assistidos.
Um dos resultados desse esforço foi o caso de um homem que conseguiu emprego e alugou uma pequena casa com o apoio da rede de solidariedade. Para o padre Elson, experiências como essa mostram que o acolhimento pode abrir novas possibilidades, especialmente quando existe disposição para recomeçar.
Resgate dos vínculos familiares
A aproximação com as famílias também é uma das prioridades da pastoral. O trabalho procura compreender a trajetória de cada pessoa e avaliar, junto com ela, alternativas para reconstruir vínculos, quando esse é o seu desejo. “Cada um tem uma história, muitas vezes muito difícil. A gente conversa com a família, procura entender a situação e encontrar um caminho. Uma das nossas missões é ajudar a pessoa a voltar ao ambiente familiar, quando isso é possível e desejado”, explica o sacerdote.
Ele relata o caso de um homem que costumava pedir ajuda nas proximidades da Igreja Matriz e, depois de algum tempo, deixou de ser visto no local. A pastoral descobriu que ele estava em casa, mas vivia em condições precárias e enfrentava dificuldades de relacionamento com os filhos.
Com a articulação dos voluntários, foi localizada uma irmã que morava em outra cidade. O homem, aposentado e viúvo, acabou se mudando para a casa dela, onde passou a receber cuidados.
O episódio ilustra a importância de um acompanhamento que respeita a história e as escolhas de cada indivíduo. Nem sempre a retomada dos laços familiares é possível, mas a pastoral procura construir alternativas sem julgamentos e sem impor decisões.
Busca por espaço de acolhimento
Conforme padre Elson Vital, uma das principais demandas atuais da pastoral é encontrar um imóvel na região central de João Monlevade para alugar e transformar em espaço de acolhimento e convivência. A proposta, segundo o padre, é oferecer um ambiente onde as pessoas atendidas possam fazer refeições, tomar banho, participar de encontros e receber orientações. “O local também permitirá organizar melhor o acompanhamento e fortalecer a convivência entre voluntários e assistidos”, afirma. O padre Elson também pede a colaboração de pessoas que conheçam imóveis disponíveis com essas características e possam ajudar a pastoral a viabilizar a locação.
Solidariedade sem distinção religiosa
A Pastoral do Povo de Rua atende a todos, independentemente de religião ou crença. O princípio que orienta o trabalho é o cuidado com a pessoa humana e o reconhecimento de que todos têm direito a uma vida digna.
O sacerdote ressalta que cada trajetória tem seu próprio tempo. Algumas pessoas aceitam o apoio e conseguem avançar na reconstrução da vida; outras ainda enfrentam dificuldades para dar esse passo. Por isso, a acolhida exige paciência, respeito e continuidade. “Jesus sempre teve cuidado com as pessoas. É isso que procuramos fazer. Não se trata apenas de entregar uma marmita, mas de cuidar, conversar e oferecer condições para que a pessoa possa tomar um banho, se alimentar, encontrar trabalho e, se desejar, reconstruir os laços com a família”, afirma.
Para Elson Vital, o enfrentamento da fome e da exclusão social depende tanto de políticas públicas quanto da participação da sociedade. A atuação do poder público, das entidades sociais, das instituições religiosas e dos cidadãos precisa ser complementar, especialmente diante das situações mais graves de vulnerabilidade.
Em João Monlevade, a pastoral procura transformar esse compromisso em atitudes concretas. Ele lembra que “por trás de cada pessoa em situação de rua existe uma história que merece ser ouvida e respeitada”.
Como colaborar
A comunidade pode contribuir com a iniciativa por meio da doação de alimentos não perecíveis, embalagens para marmitas e colheres de plástico. Além das doações, a pastoral busca voluntários e o apoio de pessoas que possam ajudar a encontrar um imóvel adequado para a instalação do espaço de acolhimento.
As doações podem ser entregues na Secretaria Paroquial, a um agente da Pastoral do Povo de Rua ou na agência de veículos CarShop Automóveis, em Carneirinhos. Também é possível colaborar financeiramente por PIX através deste endereço.



