(*) Erivelton Braz

Sabe quantos estabelecimentos comerciais, empresas ou profissionais não devem ser procurados por conta do voto ou posição política do seu proprietário? Nenhum. O voto é expressão da soberania popular, não motivo para perseguições. As eleições passaram e a democracia exige respeito às escolhas, responsabilidade dos eleitos e disposição para construir o futuro que começa agora.

O Brasil fez sua escolha e é hora de baixar as bandeiras da disputa, respirar os ares de uma nova etapa e compreender que a democracia não se encerra na apuração dos resultados. Pelo contrário, é a partir dela que começa o desafio de transformar a vontade popular em perspectivas de futuro.

Em João Monlevade, assim como no Brasil, a maioria dos eleitores preferiu Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Inclusive, no segundo turno, a votação do candidato petista cresceu cerca de 4,5 vezes mais, em números absolutos, que a de Flávio Bolsonaro (PL) em relação à primeira etapa eleitoral. O resultado revela movimentos distintos do eleitorado e merece ser compreendido para além das paixões. Não se trata de diminuir quem escolheu outro candidato, tampouco de transformar a vitória de uns em derrota moral dos demais.

O voto não é uma declaração de guerra contra um familiar, o vizinho, o colega de trabalho, o comerciante. É uma escolha política, de cada um, a partir das experiências pessoais, valores, expectativas, receios e esperanças. Cada eleitor deposita nas urnas a sua interpretação do presente e do futuro que deseja. Claro que essas interpretações podem divergir profundamente, mas precisam continuar convivendo.

Por isso, preocupam iniciativas que procuram identificar, expor ou constranger pessoas e estabelecimentos comerciais por suas posições políticas ou pelo voto atribuído a elas. A liberdade de expressão assegura o direito de defender ideias, criticar governos e discordar de candidatos. Não autoriza, porém, a transformação da divergência em instrumento de intimidação, perseguição ou retaliação econômica.

Ninguém deve ser tratado como inimigo por ter votado de maneira diferente e a democracia não pode ser defendida apenas quando o resultado favorece nossas preferências. Seu valor está justamente na garantia de que o adversário também tem direitos, voz e lugar na sociedade. Lula venceu e vai precisar governar para todos, resolvendo problemas, pendências, fazendo ajustes e trazendo novos projetos para melhorar a vida dos brasileiros. Já quem perdeu tem o direito de fiscalizar, criticar e se organizar para disputar novamente.

O cientista político e jornalista Sérgio Abranches aponta para um horizonte de reorganização das forças políticas brasileiras. Com a fuga de Flávio para os Estados Unidos, ele reflete que o bolsonarismo pode perder centralidade na disputa presidencial, abrindo espaço para uma direita democrática capaz de construir identidade própria. Na esquerda e no centro, a sucessão de Lula também exigirá renovação de lideranças e projetos. Assim, nenhuma corrente política está com o futuro garantido, bem como, nenhuma liderança herda automaticamente a força eleitoral de outra.

Os desafios estão postos. O Brasil precisa de uma direita que não confunda oposição com hostilidade, radicalismo e atente contra a democracia com pensamentos golpistas de não aceitarem a derrota. E a esquerda precisa ser capaz de olhar adiante de Lula. Na verdade, o país está carente de lideranças capazes de compreender que governar é unir um país diverso, e não alimentar divisões.

Em Monlevade, como no restante da nação, a vida continua depois das eleições. As contas chegam, o comércio e as empresas precisam funcionar, vender, empregar e os serviços públicos precisam melhorar. Nenhuma dessas necessidades será atendida pela perseguição ideológica ou pelo ressentimento eleitoral. A disputa acabou e, mesmo que as diferenças de pensamento permaneçam, o que se espera é o respeito. Nem o Brasil, nem Monlevade precisam que todos pensem da mesma maneira. Na real, as pessoas querem viver com dignidade, o comércio e as empresas querem prosperar, independentemente de como cada um votou. É hora de seguir em frente.

(*) Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação