O Centro Público de Economia Popular Solidária de João Monlevade entra em uma nova fase. Com a ampliação dos dias de funcionamento, que deixam de ser mensais e passam a ser semanais, investimentos na estrutura e a incorporação de uma programação cultural permanente, o espaço pretende ir além da comercialização de produtos. O objetivo é se transformar em ponto de encontro para moradores e visitantes. A proposta reúne geração de emprego e renda, valorização da produção autoral, gastronomia, artesanato, agricultura familiar e cultura.
A nova dinâmica foi apresentada pela vice-presidente da Associação dos Artesãos de João Monlevade (Solidariarte), Elaine de Andrade Oliveira, durante entrevista ao quadro “Erivelton Braz Entrevista”, do jornal A Notícia. A mudança ocorre em um momento simbólico para o movimento: a Solidariarte completou 25 anos de história no dia 14 de setembro; a Feira de Economia Popular Solidária chegou aos 13 anos; e o espaço atual completou dois anos de ocupação.
Ampliação
A partir de agora, a feira passa a funcionar todas as sextas-feiras, das 16h às 22h, e aos sábados, das 7h às 14h. A intenção é estabelecer uma rotina capaz de atrair não apenas consumidores, mas também famílias interessadas em gastronomia, música, literatura, artesanato e outras manifestações culturais. “Trabalhamos a cultura na vertente do saber e da valorização”, explicou Elaine. Para ela, a Economia Solidária permite aproximar a produção cultural da geração de renda. Congados, literatura, música, manifestações religiosas, artes visuais e outras expressões podem ocupar o mesmo espaço onde são comercializados os produtos dos empreendedores.
A lógica, segundo Elaine, está justamente na valorização de quem produz. Na Economia Solidária, o produto comercializado é resultado do trabalho do próprio empreendedor, e não simplesmente uma mercadoria adquirida de terceiros para revenda. O princípio vale para alimentos, artesanato e também para a produção cultural.
Trajetória
A Feira de Economia Popular Solidária começou em João Monlevade em 2013 e possui atuação regional, reunindo empreendedores de municípios do Médio Piracicaba, como Bela Vista de Minas, São Domingos do Prata, Rio Piracicaba e Nova Era.
Antes de chegar ao atual endereço, as atividades eram realizadas nas ruas, principalmente, na rua Lila Bicalho, em frente à Igreja Sagrado Coração de Jesus. Segundo Elaine, reclamações sobre a realização das feiras naquele local acabaram provocando uma audiência pública e, posteriormente, a definição de que o município deveria disponibilizar um espaço adequado para a comercialização dos produtos da Economia Popular Solidária.
Porém, segundo Elaine, o que inicialmente poderia ser visto como um problema acabou contribuindo para uma mudança estrutural. “Quem reclamou nos fez um grande favor”, resumiu Elaine durante a entrevista.
Mais de 60 empreendedores
Atualmente, aproximadamente 66 pessoas participam do movimento. O número, entretanto, já foi bem maior, segundo Elaine. Entre 2018 e 2019, a associação chegou a reunir quase 140 participantes. A estrutura atual envolve 22 empreendedores da alimentação, dois do segmento de bebidas, um produtor de chope artesanal, 17 agricultores familiares, oito produtores de quitandas, doces e bolos, além de aproximadamente 15 a 16 artesãos.
É justamente o artesanato que enfrenta, segundo Elaine, um dos maiores desafios. A dificuldade de manutenção dos artesãos no movimento está relacionada à falta de valorização da produção local e à necessidade de garantir remuneração adequada para quem vive do trabalho autoral.
Mesmo com as dificuldades, a feira possui capacidade de movimentar valores significativos. Conforme estimativa apresentada por Elaine, uma edição pode alcançar até R$50 mil em vendas, fazendo circular recursos não apenas em João Monlevade, mas também entre empreendedores de cidades vizinhas.
Estrutura
A expansão do funcionamento foi acompanhada por melhorias físicas. Uma emenda parlamentar de R$150 mil possibilitou a cobertura da área principal do galpão, a instalação de um palco fixo e a aquisição de 50 jogos de mesas e cadeiras.
A estrutura abre espaço para uma nova concepção da feira. A ideia é que cada fim de semana tenha uma programação cultural diferente, aproximando o público dos artistas e produtores da região.
A estreia dessa nova proposta ocorre com o evento “Sabores di Versos”, voltado à literatura e à escrita, em parceria com os grupos Sete Faces e Atreslie. A programação inclui sarau, participação de escritores, clubes de leitura e palco aberto, nesta sexta (18) e sábado (19). “A perspectiva é transformar o local em um ambiente de convivência, no qual o visitante possa comer, comprar produtos artesanais, conhecer escritores, ouvir música e participar de atividades culturais”, informa Elaine.
Espaço público e política permanente
O funcionamento do Centro Público também está relacionado a questionamentos feitos por vereadores sobre o pagamento do aluguel do imóvel pela Prefeitura. Elaine defende que o espaço seja compreendido como uma estrutura pública destinada à geração de trabalho e renda, e não como uma sede privada da associação.
Segundo ela, o município é responsável pelo aluguel e pela manutenção dos banheiros. Os demais custos relacionados à limpeza, decoração e atrações são assumidos pelos próprios feirantes, por meio de editais e parcerias.
A dirigente defende que o espaço seja consolidado como uma política pública permanente. Para ela, a meta de longo prazo é ter um local de comercialização diária, com estandes de madeira, presença constante de produtores e uma programação capaz de transformá-lo também em ponto turístico de João Monlevade.
Outro desafio é definir a relação entre a Economia Solidária e os vendedores ambulantes. Elaine considera que os dois segmentos possuem características distintas. Enquanto os trabalhadores de rua precisam de uma estrutura própria, como um espaço popular de comércio, a Economia Solidária trabalha com formação, cooperação, produção autoral, artesanato e valorização cultural. Para ela, aproximar os dois modelos sem uma organização adequada poderia prejudicar ambos.
No conceito defendido pela Solidariarte, a Economia Popular Solidária se sustenta em princípios como autogestão, cooperação, solidariedade, respeito ao meio ambiente e distribuição justa da renda. Mais do que uma feira, portanto, a proposta é criar uma forma coletiva de produção e comercialização, na qual o trabalho de cada participante contribua para movimentar uma rede econômica e cultural.


