Há algo de errado quando uma cidade que, ao longo de 25 anos, aprendeu a separar o lixo precisa reaprender a conviver com ele. A suspensão da coleta seletiva em João Monlevade, a partir deste mês de setembro, expõe um problema que vai muito além da falta de trabalhadores na triagem.

A Atlimarjom chegou ao limite de sua capacidade, acumulou material e interrompeu o serviço. A previsão de retomada, somente em janeiro, transforma uma dificuldade operacional em um problema de política pública.

É preciso reconhecer que a associação tem responsabilidades, mas não pode carregar sozinha uma tarefa que interessa a toda a cidade. A coleta seletiva não nasceu apenas para retirar papel, plástico, vidro e metal das casas. Ela reduz o volume de resíduos destinado ao aterro, gera renda para trabalhadores, preserva recursos naturais e ajuda a construir uma cidade ambientalmente mais responsável. Quando funciona, quase não é percebida. Quando para o problema aparece dentro das casas.

Por isso, a pergunta não deveria ser apenas porque a Atlimarjom não consegue manter o serviço. A pergunta mais importante deve ser por que o município permitiu que uma política pública chegasse a esse ponto. Falta de mão de obra não surge de uma hora para outra e acúmulo de material não é surpresa. Limitações de espaço, estrutura e capacidade de triagem também precisam ser previstas. Gestão pública precisa ser feita em conjunto e existe justamente para antecipar problemas e não apenas reagir quando eles já se instalaram.

Também não é razoável transferir para o cidadão a conta de um sistema que não conseguiu acompanhar sua própria demanda. A população que separa o lixo faz a sua parte. O trabalhador que coleta e separa também. Cabe ao poder público garantir que essas duas pontas não se percam no caminho.

Quando a coleta seletiva é interrompida por meses, não se suspende apenas um serviço. Interrompe-se um hábito que talvez não tenha mais volta. João Monlevade não pode correr o risco de ensinar ao cidadão uma lição equivocada: separar o lixo não vale a pena porque, no fim, tudo pode voltar para o mesmo lugar. A cidade precisa de uma solução urgente, antes de janeiro. A coleta seletiva não é favor e não pode ser descartada.