(*) Rogéria Rocha

Como professora e em um ano eleitoral, não poderia deixar de refletir sobre o momento que o nosso país atravessa. Vivemos um tempo em que a política ocupa cada vez mais espaço nas conversas, nas redes sociais e até nas relações pessoais. No entanto, antes de qualquer ideologia, existe a vida. Uma mulher agredida não é de direita nem de esquerda; é uma vida em risco. Uma criança vítima de abuso não tem partido; tem uma infância sendo destruída. Uma família que passa fome não escolheu essa realidade por convicção política. O que falta não é discurso, mas comida na mesa.

Da mesma forma, quem espera meses por uma cirurgia ou não consegue uma vaga no hospital não enfrenta um problema ideológico, mas a angústia de ver a própria vida colocada em uma fila. Uma família endividada por apostas on-line não caiu nessa situação por defender este ou aquele lado político, mas porque foi vítima de um sistema cuidadosamente estruturado para explorar sua vulnerabilidade. Quem perde a casa, a plantação ou um ente querido em uma enchente, em uma seca ou em outro evento climático extremo também não sofre uma tragédia com cor partidária. A dor humana não reconhece bandeiras.

A mãe que não encontra uma vaga na creche para deixar os filhos enquanto trabalha não enfrenta um dilema de direita ou de esquerda. Ela é obrigada a escolher entre garantir o sustento da família ou cuidar dos próprios filhos, quando, na verdade, deveria contar com uma rede de apoio capaz de assegurar o desenvolvimento saudável das crianças. O pai que perde um filho em um assalto ou em uma briga de trânsito também não perde para um adversário político; perde para a violência. Essas pessoas representam a verdadeira nação. Essa é a realidade cotidiana de milhões de brasileiros.

O problema é que, quando transformamos o sofrimento humano em munição para disputas políticas, deixamos de enxergar pessoas e passamos a enxergar torcidas. A lógica da polarização banaliza a dor do outro, ridiculariza dificuldades, cria inimigos imaginários e dissemina o ódio. Ela faz famílias brigarem à mesa de domingo, rompe amizades construídas ao longo de décadas e coloca pessoas umas contra as outras por causa de discursos que, muitas vezes, nem nasceram delas, mas foram simplesmente reproduzidos.
A polarização não protege ninguém. Ela interessa apenas aos grupos políticos que se fortalecem quando a sociedade está dividida. Enquanto discutimos quem está certo, deixamos de discutir aquilo que realmente importa: a qualidade da educação, da saúde, da segurança pública, da assistência social e das oportunidades para as famílias. Perdemos a capacidade de escutar e passamos a acreditar que só vale a pena conviver com quem pensa exatamente como nós.

No entanto, ninguém evolui permanecendo preso às próprias certezas. Crescemos quando somos capazes de ouvir, questionar, rever posições e aprender algo novo. O objetivo não deveria ser vencer uma discussão nem construir muros cada vez mais altos entre as pessoas. O verdadeiro desafio é construir pontes, mediar interesses e encontrar caminhos de equilíbrio que permitam uma convivência respeitosa, mesmo entre aqueles que pensam de forma diferente.

Antes de vestir a camisa de um lado, vale fazer uma pergunta sincera: esse problema realmente afeta a minha família ou apenas alimenta uma disputa política? O grupo que eu defendo está preocupado com as necessidades reais das pessoas ou apenas criando narrativas para manter a sociedade dividida? Em tempos de radicalização, talvez o maior ato de cidadania seja desconfiar dos discursos prontos, cultivar o senso crítico e lembrar que nenhuma ideologia vale mais do que a dignidade humana.

(*) Rogéria Rocha é itabirana, advogada e professora.