Um dos profissionais mais reconhecidos e prestigiados da Medicina de João Monlevade aproxima-se da comemoração de seus 90 anos de vida. Agora, afastado das atividades médicas, o doutor Stanley Baptista de Oliveira relembra as mais de seis décadas de carreira dedicadas à saúde de João Monlevade, uma das mais longas do município. Ele falou ao A Notícia na última semana.

Stanley Baptista de Oliveira nasceu a 16 de novembro de 1936 em Muriaé, na zona da Mata mineira. Ele é o segundo dos sete filhos do casal João Baptista de Oliveira e Ana Ceroulli de Oliveira. O pai era bancário, e com as transferências, a família se mudou para Carangola, para Campos dos Goytacazes (RJ) e, com cerca de 12 anos, para a capital mineira.

Em Belo Horizonte, residindo no bairro da Floresta, ele ingressou no tradicional curso de Medicina da então Universidade de Minas Gerais (UMG). Naquela época, a instituição passava por um processo de aperfeiçoamento, trazendo professores de São Paulo. Doutor Stanley formou-se em dezembro de 1961, e uma fotografia guardada na sala de sua casa, no bairro Vila Tanque, recorda a sua graduação.

Chegada a Monlevade

Em janeiro do ano seguinte, o jovem doutor Stanley, então com recém-completados 25 anos, fez as malas e se mudou para João Monlevade, à época ainda um distrito de Rio Piracicaba. Naquele ano de 1962, a economia monlevadense girava em torno da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira (CSBM), empresa que o contratou como médico clínico. Stanley foi contemporâneo de médicos que fizeram história em João Monlevade, como Maria Déa Ramos de Almeida, a “doutora Déa”, e Custódio Alvarenga, que chegou à cidade em 1967 a convite de Stanley.

Especializado em Cardiologia e Geriatria, e atendendo também como clínico médico, o doutor Stanley trabalhou por décadas na Belgo-Mineira, chegando a chefe do serviço médico; na Associação Beneficente dos Empregados da Belgo (Abeb), atual Abertta Saúde; no Hospital Margarida; e no seu consultório particular, no bairro Carneirinhos.

A vida se dividia entre o consultório e o lar. Embora dedicado à profissão, Stanley não negligenciou a família. Em setembro de 1962, meses após sua chegada a João Monlevade, casou-se com Marília Candiotto de Oliveira. Ela seria sua companheira no lar e no labor, pois, pelos anos que viriam, ela foi sua secretária e auxiliar em atividades como o eletrocardiograma. Do matrimônio, nasceram três filhos: Paulo, Cláudia e Flávio. Hoje, o casal ainda possui sete netos e duas bisnetas.

A esposa, dona Marília, conta que a rotina de trabalho era longa, e por vezes, exigia renúncias: “Ele já chegou a trabalhar de manhã, à tarde e à noite, fazendo plantão. Houve vezes em que, no Natal, os meninos queriam ir a Belo Horizonte, onde temos parentes, mas ele dizia ‘tenho que ir trabalhar”.

Dedicação e reconhecimento

Os anos se passaram e a confiança da comunidade do Médio Piracicaba em seus serviços apenas fez aumentar. Seu prazer era atender e, principalmente, resolver os casos mais difíceis. O doutor Stanley conseguiu uma extensa carta de pacientes, que faziam questão de serem atendidos por ele, como recorda Marília: “Tinha uma senhora de 103 anos, a dona Bernadete, de Nova Era, que era carregada pelas netas. Nós a chamávamos ‘dona Dedete’. Ela fazia questão, ‘eu quero consultar aqui’. São amigos que passaram pela nossa vida”.

Alguns levavam presentes, como verduras, legumes, ovos, para agradecer pela atenção e pela saúde recobrada: “Algumas pessoas não sabiam falar o meu nome. Chamavam-me de ‘doutor Estanho’, ‘Doutor Stander’ ou ‘Doutor Estranho’”. Houve até quem batizasse os filhos com o nome do médico, como uma bebê que ganhou o nome de Stanisléia. A própria classe médica o reconhece e o homenageia: o Centro de Terapia Intensiva (CTI) do Hospital Margarida carrega o nome de Stanley Baptista de Oliveira.

O vínculo de Stanley e Marília com João Monlevade permanece forte, como explica a filha Cláudia: “Eles são muito felizes, muito gratos. Gostam muito da população, e a população gosta muito deles”. Ela conta que, de vez em quando, leva os pais para Belo Horizonte, mas eles logo dizem que querem regressar: “Todo mundo conhece o papai”.

Cronista

Em paralelo à carreira médica, Stanley também se dedicou à literatura. Durante anos, escreveu crônicas bem-humoradas e reflexivas para vários jornais, entre esses, A Notícia, que resultaram em um livro: “Confusão no Elevador”, publicado em 1995. Ele seguiu colaborando com seus textos na imprensa até poucos anos atrás. Marília também se tornou conhecida pelo trabalho em prol dos mais necessitados, atuando em instituições como o Asilo Lar São José e a Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).

O empenho em prol de salvar a vida de cada paciente encontra uma razão: “Papai sempre foi um homem de muita fé. Lembro que alguns pacientes diziam que ele era médico e padre. Ele sempre teve muita fé, e sempre ensinou os pacientes a terem muita fé e a acreditarem em Deus”.

Trabalho permanente

A dedicação e o labor permaneceram, mesmo depois de oito décadas de vida e de mais de meio século de carreira médica. Sua filha Cláudia conta que, durante a pandemia da Covid-19, a família proibiu que Stanley e Marília trabalhassem, para poupá-los do risco de contaminação pelo vírus: “Ele quase entrou em depressão! A vida dele era trabalhar! Ele dizia: ‘ou vocês me deixam trabalhar, ou vou adoecer!’”. Por fim, os familiares acabaram tendo que liberá-los para o serviço.

Depois, já com 85 anos, veio a descoberta de um tumor na bexiga, que precisou ser removida. O próprio médico que o tratava impressionou-se ao saber que ele pretendia retomar a carreira. Um mês após a conclusão do tratamento, o médico monlevadense estava de volta ao consultório, planejando prosseguir até os 90 anos. A labuta para o casal seguia por dez horas diárias, das 11h às 21h.

Retiro forçado

O doutor Stanley continuou atendendo normalmente até o início de 2025, já com 88 anos, quando, após um dia de trabalho, sentiu-se mal e repentinamente precisou se afastar. Cerca de um mês depois, sofreu uma fratura no fêmur em decorrência de um acidente doméstico, que o obrigou em definitivo a parar de atender, sem tempo para preparar uma aposentadoria ou comunicar a clientela, o que o deixou bastante triste.

Hoje, ele descansa e cuida da própria saúde e da família. Ocasionalmente, ele ainda recebe telefonemas de antigos pacientes que querem receber seus cuidados, mas eles são informados de que, agora, terão de procurar outro profissional. Muitos até protestam: “Mas como vou fazer? Eu só sei consultar com o doutor Stanley!”. Cláudia diz: “Os dois adoram Monlevade. A cidade inteira conhece-os. Quando saiu a vacina da Covid, eles foram convidados para serem os primeiros a tomarem a vacina, porque ele é o médico mais velho e mais antigo”.

Motivação

Mas a paixão e a dedicação pela Medicina plantadas por Stanley frutificaram em sua descendência. Uma das netas, Flávia, filha de Cláudia, tornou-se médica otorrinolaringologista e atende em Belo Horizonte. A bisneta Alice, de 5 anos, já fala em seguir a profissão, e quando alguém da família se sente mal, corre para “examinar” o paciente com seu pequeno estetoscópio.

Ao voltar os olhos para o passado e relembrar os dias de sacrifício e trabalho intenso, Stanley garante: “Valeu a pena. Tenho prazer em ser médico”. Para as novas gerações de médicos, o veterano deixa uma mensagem: “Dediquem-se ao estudo. Tenham carinho, tenham respeito com o doente que chega às suas mãos. Sejam bem-sucedidos na profissão, graças ao estudo, à dedicação, à honestidade, ao amor ao próximo. Tratem a pessoa como se fosse um parente, um pai, um filho. Isso é uma recompensa”.