Desde 1984
Eduardo Quaresma
18 de Novembro de 2022
O problema das enchentes

O problema da cidade de João Monlevade em relação às enchentes no período chuvoso, assim como em outras cidades brasileiras, envolve alguns pontos chaves: topografia, educação ambiental, ocupação irregular, impermeabilização do solo e falta de obras de drenagem que facilitem o escoamento das águas pluviais. Sobre a questão topográfica do município, as encostas direcionam toda a água e resíduos sólidos para o córrego Carneirinhos, na parte mais baixa. As inundações, além de danos materiais, podem provocar doenças, como a leptospirose, entre outras. Portanto, o problema também trata-se de uma questão de saúde pública. 

É importante e necessário, nesse momento, investir ainda em Educação Ambiental. O elevado índice de poluição não tem solução rápida, tanto devido à falta de consciência por parte da população, quanto por sistemas ineficientes de coleta de lixo ou mesmo, de distribuição de lixeiras pela cidade. Assim, com os resíduos jogados nas vias, ocorre o entupimento dos bueiros que seriam responsáveis por conter parte da água que eleva o nível dos rios e córregos. Os materiais gerados são levados pelas enxurradas, o que contribui ainda mais para elevar o volume das águas. 

A ocorrência de enchentes também pode estar relacionada a problemas nos sistemas de drenagem, que são uma das quatro vertentes do saneamento básico. Às vezes, não há bueiros ou outras construções que seriam responsáveis ou suficientes pela contenção ou desvio da água, que corre para os rios ou córregos, provocando a cheia deles. 

Outra questão é a ocupação irregular ou desordenada do espaço urbano. Com a ocupação irregular dessas áreas, muitas vezes causada pela ausência de planejamento adequado, as pessoas estão sujeitas à ocorrência das inundações. Além disso, a remoção da vegetação pode intensificar o processo, pois ela teria a função de reter parte dos sedimentos que vão para o leito dos rios e córregos aumentando o nível das águas.

Porém, na maioria das cidades de médio e grande porte, a causa considerada principal para as enchentes é a impermeabilização do solo. Com a pavimentação das ruas e a cimentação de quintais e calçadas, a maior parte da água, que deveria infiltrar no solo, escorre na superfície, provocando o aumento das enxurradas e a elevação de canais subterrâneos. Além disso, a impermeabilização contribui para o aumento da velocidade desse escoamento, provocando erosões e causando outros tipos de desastres ambientais urbanos. 

Existem inúmeras medidas de combate às enchentes nas cidades. Uma maneira poderia ser treinar e capacitar funcionários encarregados de detectar o início de inundações em áreas de risco, com a função de coletar dados, a fim de utilizá-los em estudos para minimizar os efeitos da inundação que ocorre em um curtíssimo período de tempo. Outras ações envolvem a construção de barragens e o desassoreamento do leito dos rios, córregos e a limpeza de canais. São medidas paliativas, apenas para minimizar ou combater uma situação já existente.

 O ideal seria investir na prevenção, através da construção de sistemas eficientes de drenagem, desocupação de áreas de risco, criação de reservas florestais nas margens dos rios e córregos, diminuição dos índices de poluição e geração de lixo e, principalmente, um planejamento urbano devidamente estudado e elaborado, que oriente os gestores públicos a definirem os projetos. E, ainda, a parte fundamental: como captar os recursos necessários para a execução dessas obras e serviços.

 

Nota da redação

 

O engenheiro Eduardo José Quaresma escreveu esse artigo nesta mesma página 2 do A Notícia, a convite do editor Erivelton Braz, em janeiro de 2020. Agora, o jornal reproduz o texto na íntegra, sem alterações ao já publicado, quase três anos depois. Impressionante que de lá pra cá, pouco ou nada foi feito no sentido de minimizar os impactos das chuvas. Tanto que, mais uma vez, João Monlevade se vê às voltas com os dramas provocados pelas enchentes. É necessário agir, fazer o que precisa ser feito, para que esses problemas não continuem a se repetir ano a ano. Necessário um estudo hidrológico para elaborar um plano de ações a curto, médio e longo prazo. Existem problemas estruturais nas ligações dos canais e redes de drenagem. Assim com base nesse estudo técnico definir as prioridades, avaliar os custos e viabilizar a execução dos serviços, senão esse texto infelizmente vai ficar sempre atualizado.

 

 

(*) Eduardo José Quaresma é engenheiro civil, professor universitário, inspetor chefe do Crea-MG Inspetoria de João Monlevade