Desde 1984
Jacqueline Silvério
22 de Abril de 2022
A era digital e as mudanças nos hábitos de leitura

Uma coisa devemos ter como certa e irrefutável: a evolução tecnológica incidiu sobre as nossas vidas de maneira direta e irremediável, desenhando novos caminhos sobre as relações em todas as esferas da nossa convivência. Adentramos a era digital, tumultuada e irrevogavelmente, sem prévia aquiescência ou mesmo percepção dos nossos sentidos e estados emocionais ou psicológicos. E essa revolução digital colidiu diretamente com a nossa condição humana tão ordinariamente afeita a contatos por sentidos diretos e estreitos.

No aspecto específico da leitura, dos livros físicos e digitais, do aprendizado e do conhecimento concreto, notamos que ocorreu uma iniciação à era digital sem muito preparo prévio. A insuficiência de formação profissional de educadores e o distanciamento familiar dos pais de suas relações com os filhos, por motivos e necessidades diversas, ensejaram uma apropriação indevida por parte dos filhos e alunos sobre o potencial inovador dos avanços da tecnologia em favor da educação. Nesse sentido, eles estão muito mais afeitos às áreas recreativas e de curiosidades pessoais oferecidas pelas mídias do que, exatamente, no uso das tecnologias para o aprendizado consciente e de formação. 

A partir dessa liberdade de acesso, é real constatar-se as efetivas mudanças nos hábitos de leitura, ensejando pontos positivos e negativos. Entretanto, a tecnologia, se bem utilizada, incentiva a leitura e a dinamiza através das suas diversas mídias de envolvimento, favorecendo uma experiência motivadora e de crescimento. A função da tecnologia é exatamente assegurar que todos, sem distinção, possam desfrutar do prazer de ler. 

Mas, então, como ficam os livros físicos nessa avalanche de leitores virtuais? De alguma maneira, o livro físico vem resistindo, bravamente, no cenário livreiro, e, a despeito da proliferação de e-books, de conteúdos e qualidade variados, há uma gama inestimável de leitores que apreciam tocar no livro, virar cada página, cheirar suas folhas e, também, expô-los em estantes como um troféu precioso.

Com a experiência de 34 anos no mercado livreiro, através da Livraria República Literária, e sempre antenada à realidade virtual, percebo (ao contrário do que muitos pensam) que vem ocorrendo sim, um aumento expressivo de compradores de livros por meios virtuais, principalmente. A facilidade gerada pelo acesso aos sites de venda de livros intensificou a fileira de novos leitores e impulsionou o acesso daqueles de sempre, o que, não necessariamente, significou um aumento de livros lidos. Vendem-se mais livros, de maneira geral, pela internet, mas, não necessariamente lê-se mais!

Na compulsividade a que ficam expostos, leitores acabam por adquirirem muito mais livros do que realmente dão conta de ler e/ou absorver seu conhecimento. A tecnologia tem trazido essa experiência de consumo sem muita reflexão. O que não ocorre muito em livrarias físicas. Nossa experiência é sempre de acolhimento ao cliente-leitor em sua necessidade de leitura pontual, no presente momento. Porque a leitura tem seu tempo de existir para cada emoção/sentimento do seu leitor. Não se lê qualquer livro a qualquer momento. A alma indica a sua necessidade.

Toda essa liberalidade de conteúdo literário e essa desigual concorrência com as livrarias físicas nos trará, a breve espaço de tempo, o seu desmantelamento pleno. Em breve tempo, perder-se-ão os contatos pessoais, a escolha e as indicações presenciais de livros, as amizades seladas no tempo por histórias compartilhadas de leituras de livros inesquecíveis trocados em confiança de devolução segura.

Decerto, tudo isso faz parte do processo evolutivo. As mudanças ocorrem e nos levam junto ou nos deixam à margem das lembranças. Não sei se posso dizer ser favorável à modernidade líquida à qual estou inserida. Mas há um tempo para tudo e todas as coisas. Tudo brota, tem seu esplendor e sai de cena. E é preciso avançar. Ainda não sei bem como estão indo. Mas estamos indo.


(*) Jacqueline Silvério é sócia-proprietária da Livraria República Literária