Desde 1984
Eduardo Quaresma
20 de Agosto de 2021
Por que tantos acidentes na Ponte Torta?
“Logo abaixo da Ponte do Saraiva, 9 km, tendo crescido a povoação dos dois lados do rio, surgiu a necessidade de construir outra ponte; escolheram o local onde se achou mais facilidade e segurança, reuniram os moradores e acharam um lugar mais estreito do rio onde se podia fazer a ponte de madeira com um só lance, afim de economizar trabalho. Mas o local ficava entre barrancos, de um lado e de outro do rio. Assim, o jeito que tiveram foi fazer uma ponte curva, para poder passar nela carros de bois. Daí o nome da Ponte Torta, que conserva até hoje”.

Esse texto foi escrito por Raymundo Fonseca, tio do Frederico Barros (Embraterr), e enviado muito gentilmente pelo Afonso Torres, o Afonsinho. Iniciei esta coluna para entender de onde surgiu o nome da ponte, já que a atual é reta. Construída no início dos anos 70 e inaugurada no final de 1976, participei da inauguração como aluno da 8ª. Série do Centro Educacional. Ela possui 195m de extensão, e sob a ponte existem as linhas férreas da Vale, a estrada de ligação entre João Monlevade e Rio Piracicaba pelo bairro Jacuí e o Rio Piracicaba com uma altura média de 50m.

Os estudos de Engenharia para a construção da ponte há 50 anos levaram em conta o que os engenheiros da época tinham em mãos. Hoje, os carros são projetados de outra forma com velocidades muito maiores e os caminhões com dimensões muito maiores e pesos mais elevados.

No trecho entre Belo Horizonte, até logo após a Ponte Torta, as BRs 381 e 262 se fundem e passam a ocupar o mesmo leito. Estas rodovias possuem um trânsito diário intenso de veículos muito alto. E também a sua concepção levou em consideração os parâmetros e normas da época, na década de 1950, que sofreram alterações ao longo deste período.

Especificamente, neste ponto, os dois sentidos da Ponte recebem um fluxo de veículos maior, no sentido Vitória uma curva em declive que se junta com o trevo de Rio Piracicaba, Alvinópolis e Dom Silvério. Do outro lado, a junção das BRs 381 e 262, no sentido BH existe também um declive em que os motoristas descem para adentrar na Ponte com uma velocidade considerável e que intercepta a BR 262, onde cada um entende que a preferência é dele. Essas pistas, com acostamento, dão uma conotação e sensação, que se pode ter maiores velocidades. O pavimento das rodovias é também outro ponto a ser considerado, muitas falhas, com buracos e com recuperação executadas de forma indevida. Motoristas desviam, e colocam em risco outros usuários da rodovia, além ainda da imprudência com velocidades incompatíveis.

Em oito meses tivemos, infelizmente, três acidentes que foram noticiados no Brasil e no mundo. Em dezembro foi um ônibus de turismo, em janeiro um caminhão carregado com revestimento asfáltico e agora em julho outro caminhão carregado de madeira, totalizando 26 mortos. Qual a razão destes acidentes? Não quero de forma alguma julgar os motoristas em questão. Seria muito leviano de minha parte. Mas as considerações que fiz anteriormente, de certo modo contribuíram para que os acidentes acontecessem.

Outro ponto importante é a concepção da ponte, sem acostamento com a passagem de pedestres sem segurança, as muretas de proteção numa grande extensão em péssimo estado, e fora das normas atuais de Engenharia.

Acredito que a Concessão desta Rodovia, anunciada pelo ministro da Infraestrutura Tarcísio Gomes de Freitas, com a realização da duplicação deste trecho, deva contemplar uma nova travessia em um novo formato, com a observação das Normas atuais de Engenharia que promovam a segurança dos usuários. No entanto, enquanto isso não ocorre, uma manutenção permanente da ponte na sua estrutura com alterações nas muretas de proteção faz-se necessário.

Também a curto prazo o estudo e execução de um sistema de sinalização vertical e horizontal com até redutores eletrônicos de velocidade podem contribuir para a segurança do trecho. Existem vários acidentes no entorno da Ponte que não são registrados pela mídia, mas que acontecem em número significativo.

Importante, antes da Concessão se tornar realidade, a Engenharia deve se fazer presente para amenizar os problemas a curto prazo, pois estes eventos, infelizmente, ceifam muitas vidas, e deixam famílias desoladas.

(*) Eduardo José Quaresma é engenheiro civil, professor universitário e inspetor chefe do Crea-MG Inspetoria de João Monlevade