Desde 1984
Wir Caetano
29 de Janeiro de 2021
Política de autores e autoras

Embora o título remeta a uma expressão criada por cineastas franceses dos anos 1950, jovens como François Truffaut, Jean-Luc Godard e outros da revista “Cahiers du Cinéma” -, este artigo não vai falar de cinema. Fará referência a vídeo, mas importamesmo é a questão da autoria.

Não deve ser por acaso que, ao começar a digitar “autoria” no final do parágrafo anterior, um deslize me fez escrever “euforia”. Incidente mais do que natural, porque talvez tenhamos motivos para ficar eufóricos e eufóricas com autores e autoras que, acredito, podem passar a deixar seu trabalho mais à luz.

Preâmbulo feito, vamos lá: este texto trata de que mesmo? De música autoral em João Monlevade. Compositores e compositoras sempre tivemos por aqui, mas dificilmente o público conhece de fato essa produção. Por quê?

Porque já não vivemos a era dos festivais, que eram uma boa forma (ainda que limitada) de divulgar composições, e porque em shows, presenciais ou online, a aposta no cover, na interpretação de repertórios de figuras consagradas no mercado e demandadas pelo público, se impõe.

Nesse cenário, a Lei Aldir Blanc foi uma boa oportunidade para criadores e criadoras locais de música (entre outras artes, claro). Foram contemplados cinco projetos autorais: de Geovane Richard, Rangel Garcia, Roger César, banda Bonapart e do quarteto 4 por 4, que criei em 2019, e, em sua formação atual, é composto por Márcia Fonseca (voz), Lauzin Santos (arranjos, violão e voz), Heráclio (percussão) e Felipe Eugênio (flauta).

No caso do meu grupo, o edital foi fundamental – e certamente para os demais artistas, porque os planos de show ao longo de 2020 foram adiados e outra vez adiados à medida que o cenário da pandemia de Covid-19 mostrava-se persistente.

A “política de autores”, para levar ao público a produção contínua nascida da parceria entre o compositor baiano Zecrinha e eu, parecia estar nas cordas. Mas entrou em cena a Lei 14.017/2020, fruto de uma grande articulação de trabalhadores e trabalhadoras da cultura país afora – que começou com um projeto de lei da deputada Benedita da Silva, foi aprovada pelo Congresso Nacional na forma de substitutivo de Jandira Feghali (PC do B) e recebe nome de um dos maiores letristas do cancioneiro popular brasileiro, vítima fatal do coronavírus no ano passado. Graças a recursos viabilizados por meio desse instrumento legal, produzimos um videoclipe. “Junto de Nós”, a canção que passou a estar disponível na Internet desde a noite de quinta-feira (28), é um cateretê com roupagem contemporânea. Para a música dançante de Zecrinha, escrevi um libelo político, com linguagem popular, que fala de direito à cidade, a território, à inclusão: “olha só nosso sonho rondando a cidade / (...)/ ele chama o quilombo e a tenda cigana e o povo do morro, Krahô, Kaiapó”. Coletivo. 

Solidariedade.

Como disse o rapper Emicida no documentário “AmarElo”, disponível na Netflix, “tudo que nóis tem é nóis”. Sejamos, pois, autores e autoras de nossa arte. E de nossa história. 

O videoclipe de “Junto de Nós” pode ser encontrado no Youtube, canal “Cancionismo”, e no Facebook, no endereço http://facebook.com/dtimagem.


(*) Wir Caetano é letrista de música, escritor, jornalista e fotógrafo