Desde 1984
Erivelton Braz
09 de Outubro de 2020
Meu pranto rolou
O samba de Vinicius de Moraes e Toquinho, meu Pranto Rolou, de 1975, toca no streaming do meu celular, numa quase hora de almoço de domingo. E eu coloco-me a pensar, já que uma cerveja antes do almoço é muito bom para ficar pensando melhor: o que diria Vinícius de Morais desse mundo atual?

O poeta, poetinha camarada, que completaria 107 anos no próximo dia 19 de outubro, tão sensível à poesia, o que diria dos fascistas do século XXI? O que ele diria dos que xingam a mãe dos outros por divergências políticas? Vinícius, defensor da liberdade e amante da vida, o que falaria dos que insistem na noite escura da intolerância? O que o poeta que amava as mulheres falaria dos homens que agridem as mulheres? O que falaria o poeta dos machistas?

Vinicius de Moraes, que liderou a passeata dos 100 mil na Rio Branco, naquele 26 de junho 1968, o que falaria dos ataques da extrema direita? O que pensaria dos que são contra o casamento gay, dos que são racistas e da elite segregadora de uma minoria de privilegiados de nosso país?

Eu sempre digo que homem, que é homem, chora. Chora quando perde o primeiro amor e o último também. Eu, particularmente, sou um chorão inveterado. Choro com filme, com livro, com discursos profundos. Choro até com letra de samba-enredo. Meu pranto rola sempre que me sinto emocionado. Quando sinto saudade e quando lembro de quem partiu...

Chorar não faz vergonha, assim como não fez ao Vinicius, que canta que chorou mais do que água na cachoeira no belo samba canção. Eu fico pensando o Vinicius, hoje, chorando pelas notícias. Pela Covid, pela violência e opressão que circundam o nosso dia a dia. Não podemos deixar que o mal vença. Por maior que seja escura a noite, por mais dura que seja essa falta de esperanças e por mais cruel que seja esse mundo, vamos acreditar que o amanhecer virá. E viva Vinicius, sua obra e suas canções que nos mostram que a grande poesia está também nas coisas mais simples, como o pranto. Deixe ele rolar...

(*) Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação