Desde 1984
() Gabriela Gomes
11 de Setembro de 2020
As páginas do livro

Na infância, construímos memórias que nos acompanham ao longo da vida. Enlaçamos pessoas às nossas lembranças, experiências e aprendizados. Colecionamos papeis de cartas, além de cicatrizes nos joelhos.

Nesse terreno fértil de bons sentimentos, nascem as amizades que vão colorir os dias futuros. As tardes tem cheiro de pipoca, bolos de chocolate com leite moça e brigadeiro de colher. As férias eram divididas entre os acampamentos na varanda da casa da roça, os dias ensolarados no clube e as noites de filme de terror, entre o medo e a diversão.

Como páginas de um livro em branco, a que chamamos de vida, colorimos ao poucos cada capítulo, com direito a personagem principal, vilão e mocinhos, além de ilustrações, animações e fantasias.

Os piqueniques as margens do riacho nos transportavam para um mundo mágico, com fadas, duendes, e muito animais. As caminhadas em meio a floresta nos apresentavam a imensidão da natureza, suas peculiaridades e suas infinidades de cores. 

Sentimos saudades até do cheiro da terra molhada, após as tardes chuvosas, em que não podíamos sair para brincar na rua. Saudades dos abraços, dos laços, dos nós, que de tão apertados, nos uniam numa irmandade, na nostálgica infância. 

O tempo passa. As páginas do livro vão mudando de cor. Algumas ficam amareladas, amassadas, outras ganham brilhos especiais e novas cores. As crianças cresceram. Tornaram-se pessoas diferentes, cada qual com sua personalidade, suas particularidades e suas preferências. 

Algumas se mudam, constroem família e carreira em outras terras, e jamais voltam às margens daquele riacho. Outras saem em busca dos sonhos, batalham por seus objetivos em solo novo, mas vez ou outra voltam e molham os pés naquele mesmo rio. 

Ah, o tempo! Ele continua a seguir, sem parar um só minuto para que possamos respirar ou recuperar o fôlego. Ele voa, atropela e nos arrasta. Sem nos dar prazo para assimilar tantas transformações, tantas novidades, tantas perdas. Algumas páginas do nosso livro da vida nos são arrancadas sem que percebamos, e não há o que fazer.

Perdemos pessoas que nos eram muito queridas, com as quais construímos memórias singulares, que nos acompanharam nas tardes no clube e nos brigadeiros de colher. Elas vão viver suas vidas em outros cenários, construir novos capítulos, dos quais não faremos parte.

Em contrapartida, ganhamos novos personagens na próxima página. Vizinhos, colegas de faculdade, de trabalho, de carreira. Amores e amigos, que nos abrilhantam a alma. Cada um que chega se junta ao enredo que nos acompanha ao longo do livro da vida. Trazem drama, comédia e suspense. Cada um deixa e leva um pouco de nós. 

As tardes já não são de bolo de chocolate e pipocas, mas são regadas a vinho e bons tira gostos. Os assuntos, antes recheados de brincadeiras e alegria da juventude, agora são mais profundos, mais densos, e mais sérios.

A página mais importante desse livro é sempre a próxima, a que ainda será vivida. Reflete as possibilidades infinitas que Deus nos dá, a cada manhã. Encerramos cada capítulo como sobreviventes, entre dores e delícias que os dias nos traz. Sempre podemos começar a escrever uma página nova.


(*) Gabriela Gomes é publicitária