Desde 1984
() Wir Caetano
31 de Julho de 2020
A invasão bárbara da lentidão

Para mim, uma das melhores histórias de ficção de todos os tempos é “Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells (1866-1946). Nesse livro, publicado em partes ao longo de nove meses do ano de 1897 em uma revista britânica, os marcianos invadem a Terra, e nenhum poder humano é capaz de vencê-los. Mas os invasores acabam perdendo a guerra. Quem venceu: bactérias terráqueas que contaminam os seres de Marte

Este artigo não é para falar de ficção científica. Mas as bactérias que coroam o folhetim de Wells vieram à minha memória quando me sentei para escrever sobre vírus. Não, nada de corona. Penso agora no “vírus da linguagem”. No livro “A Revolução Eletrônica” (1971), o escritor norte-americano William Burroughs (1914-1997) disse que a linguagem é um vírus, uma forma letal que invade hospedeiros e se multiplica. 

Cientistas já sabem: frente a vírus letais, uma boa arma é uma vacina. E quem negaria que vírus da linguagem, de vários tipos, tomaram conta de redes sociais, sites e jornais em diferentes mídias?

Esses vírus hospedados em palavras, imagens, sons e outros signos têm um núcleo em comum: a velocidade. Deve ser por isso que uma característica importante de uma arma desenvolvida por aí para enfrentá-los seja esta: a lentidão.

Entramos agora no assunto: “slow journalism”, o “jornalismo lento”. Em um outro artigo para este jornal, eu disse que a melhor tradução para o adjetivo da expressão inglesa não seria o sentido literal, mas, sim, o termo “cuidadoso”. Mas mudei de opinião ao me debruçar mais sobre reflexões de algumas outras pessoas. Jornalismo “lento”, sim, porque há muito corre-corre a diluir a informação e o conhecimento. 

Assim, da mesma forma que a filosofia do “slow food” preconiza que se deva preparar sem pressa a comida e igualmente sem pressa consumi-la, o “jornalismo lento” aspira a isto: a trabalhar sem afobação o discurso, a linguagem, o produto jornalístico. E que assim seja consumido este produto: sem pressa, sem passar a bola antes de exercitar o pensamento.

Não tenho dúvida de que o jornalismo é uma das formas de produção humana que precisam, cada vez mais, ser valorizadas para que a vida contemporânea não perca o sentido. Pode ser que o momento atual da humanidade não seja pior do que muitos outros momentos tenebrosos da história da presença humana na terra. 

O que importa que é este o nosso momento histórico, é nele que estamos afundados. É por isso que o pavor precisa ser enfrentado como questão de vida ou morte. E, nessa arena onde o vírus da mediocridade faz farra, este é um bárbaro invasor (tão bom quanto os “doces bárbaros”): a lentidão do jornalismo que não abre mão do rigor e do conhecimento.


(*) Wir Caetano é jornalista, fotógrafo e letrista de música. Edita o blog NOTA PRETA - https://notapreta.home.blog/