Desde 1984
() Erivelton Braz
31 de Julho de 2020
Não estamos no mesmo barco

“Os dias podem ser iguais para um relógio, mas não para um homem”. A frase do escritor francês Michel Proust escrita há anos, encaixa perfeitamente aos tempos atuais. Cada um de nós lida de forma diferente com a pandemia da Covid-19. E, é claro que não estamos no mesmo barco, como alguns gostam de afirmar. Estamos sim, é na mesma tempestade. E há quem esteja de navio, outros, de bote. 

Os riscos de contaminação são maiores entre os menos favorecidos economicamente. Pesquisa da Prefeitura de São Paulo aponta que, na capital paulista, a incidência do coronavírus na classe E é de 17,7%, ante 4,6% na classe A. Isso mostra que os mais pobres, como sempre, são os mais vulneráveis. Os números não mentem...

Enquanto espera-se a chegada da vacina, enquanto não há cura e os riscos de contágio aumentam com aglomerações, é a população mais pobre que fica mais exposta. A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que uma das principais formas de contágio é o transporte público. 

Em Monlevade, por exemplo, estudo do professor Adriano Barros aponta que a doença está chegando às periferias através de contágio em transporte coletivo. Pessoas dos bairros, vêm ao centro com frequência e podem levar o vírus para as suas casas. E não dá para saber onde e quando se é contaminado.

A Enscon, empresa concessionária do transporte público em Monlevade, garante que faz a correta higienização dos ônibus após cada uma de suas viagens. A Notícia até acompanhou uma das limpezas e constatou o trabalho. Atualmente, com o fechamento de alguns segmentos e o isolamento social, o município tem em média 8.400 passageiros por dia. Fora da pandemia, são cerca de 16 mil, segundo a Enscon. Ou seja, 20% da população de Monlevade anda de ônibus. E esses não são os mais ricos.

Dessa forma, Poust nos chega atualíssimo. Os dias podem ser parecidos, mas não são iguais para os homens. Lutamos para sobreviver, mas as armas são distintas. Não dá para crer que todos estejamos no mesmo barco.  

Por isso, a união na luta contra o coronavírus e a pandemia deveria ser de todos. Se cada um fizer a sua parte, se cada um usar a máscara, evitar aglomerações, evitar sair de casa à toa, higienizar as mãos, evitar visitar os parentes, os amigos, rapidinho, o vírus vai embora. Foi assim em diversos países e, no Brasil, parece que ainda estamos longe de por fim a essa loucura.

O sol há de brilhar mais uma vez e as sombras ficarão para trás. Que estejamos vivos para dar nosso testemunho diante dos novos tempos que se anunciam no horizonte. Tenhamos fé. 


(*) Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação