Desde 1984
Cleonice Gomes Nogueira
17 de Julho de 2020
Discrepâncias

Hoje acordei com vontade de escrever uma crônica que falasse de amor, de gente bonita, de campos e de flores. Uma crônica que arrancasse das pessoas tristes um largo sorriso e que despertasse nelas o desejo de viver, ou quem sabe, na mais íntima loucura, a vontade de dançarem um tango à luz do luar e ao som do inefável. Hoje, eu queria escrever sobre aquele casal que corre de mãos dadas pelas dunas e que, de repente, tropeça e cai na culminância do beijo. Queria sentir por mais tempo o frescor da água cristalina que escorre vagarosamente pelos meus dedos, que buscam respostas às minhas indagações. 

Mas eu não posso... sinceramente, não posso! Ao paginar o facebook, deparei-me com uma cena que não sai da minha mente: a foto de crianças desnutridas e raquíticas com máscaras feitas de papelão tapando parte do rosto. Fiquei parada olhando aquela foto e me senti uma das últimas pessoas do mundo... Não contive as lágrimas que me escorriam dos olhos, misturadas à culpa e ao sentimento de perdão, diante do absurdo. Quantos não vivem daquele jeito? Eu que na infância cheguei a sentir o gosto da miséria, vejo diante de mim uma cena estarrecedora, que me remete ao passado.

 O gosto que sinto na alma, neste momento, é de total rebeldia e dor. Aquelas crianças são na verdade, os meus irmãozinhos, vítimas da corrupção desenfreada e da desigualdade social gritante. Por certo, nem Castro Alves teria coragem para citá-las em seus poemas, porque a dor sentida pelo poeta o colocaria em situação de mal estar por um bom tempo.

 Mas eu estou aqui... diante desta imagem que me dilacera a alma... Acredito que todos temos culpa pelas discrepâncias e distanciamentos mundiais; que somos responsáveis direta ou indiretamente pela miséria existente no mundo. 

Afinal... não somos filhos do mesmo Deus, criador de todas as coisas? Mas... na tentativa de buscar conforto para o meu ego, meus dedos se correm outras páginas do facebook ...Vejo pessoas felizes, fotos de festas arraigadas de churrasco, famílias unidas, propagandas de luxo, críticas intrépidas sobre política, notícias que dão conta do número de mortos pela Covid-19 e, novamente, volto à página das crianças com máscaras de papelão no rosto... Sinto náuseas e percebo que tudo são ilusões... Que de repente, partimos e tudo fica para trás... Percebo que os direitos nunca foram e jamais serão iguais. Enquanto houver gente que pensa que é rei, mas que, se a Covid pegar, não haverá dinheiro que pague a vida.

Agora...estou chorando copiosamente. Peço perdão e direcionamento a Deus para que Ele me conforte o espírito. Amanhã...quem sabe escreverei uma crônica que fale sobre o amor e não sobre as inconsistências da vida.


(*) Cleonice Gomes Nogueira é professora em João Monlevade