Desde 1984
() Marcos Caldeira
26 de Junho de 2020
A Vale foi criada há 78 anos, mas Itabira continua dependente da empresa

Raros municípios do interior brasileiro têm história de tamanho universal. Itabira tem no mínimo cinco: o maior poeta da língua portuguesa, ombro a ombro com o português Fernando Pessoa; a força dos trabalhadores que na picareta ajudaram a construir uma das maiores mineradoras do planeta; o minério, transformado em dezenas de milhares de itens para beneficiar povos de todos os países, do alfinete ao fabrico de aviões, navios e foguetes espaciais; a mina de esmeraldas descoberta em 1978 por José Otta Melo, uma das mais gostosas jazidas de verdinhas do mundo, que produz há 42 anos e à qual o Brasil deve sua segunda colocação entre os países que mais produzem essas pedras preciosas, atrás somente da Colômbia; e a estupenda contribuição para derrubar o nazifascimo de Adolf Hitler e Benito Mussolini — dez soldados e uma montanha de ferro.

Itabira está criando outra história grandona, mas esta péssima, horrorosa, que é ser um dos maiores casos de burrice e incompetência conhecidos na gestão pública: 78 anos depois da criação da empresa Vale pelo presidente gaúcho Getulio Vargas, no contexto da Segunda Guerra Mundial, ainda depende do minério, responsável por cerca de 70% da economia local. Sim, o município ferro-poético teve quase 80 anos para diversificar sua economia, mas fracassou. Os políticos consumiram bilhões e bilhões e bilhões e bilhões e bilhões de dinheiro público, mas não livraram Itabira da escravidão a essa commodity, que está documentada para acabar em 2029.

Qual a causa do drama itabirano? Bom, aí dá livro grosso. Trata-se de uma série de fatores, que se intercomunicam: provincianismo além da cota aceitável, subserviência, atraso, perseguição à inteligência, obscurantismo, vendilhonismo, corrupção na política, baixaria, ganância doentia por dinheiro, empresários de mentalidade tacanha e o mal dos males: a omissão de quem não tem o direito de se omitir e muito menos de se vender, que são os — vá lá a palavra — intelectuais. Refiro-me a gente ciente das coisas, conhecedora pelo menos de parte dos problemas, mas que covardemente opta pelo silêncio.

Itabira está virando chacota no Brasil por causa da brutal e longeva ineficiência política: 78 anos depois da criação da Vale, ainda depende do minério. Para não recuar muito, faço um corte histórico-político e lembro — é preciso dizer, reiterar e martelar para acordar o povo — que pelas mãos dos três prefeitos de Itabira neste milênio passou cerca de 6 bilhões e meio de reais, sem correção monetária. Dinheiro, portanto, não faltou, mas João Izael, chefe do Poder Executivo de 2005 a 2012, Damon de Sena, de 2013 a 2016, e Ronaldo Magalhães, de 2001 a 2004 e atual, não conquistaram a independência econômica do município. 

Tem nome a coisa e é muito feio: fracasso. Seis bilhões e meio nas mãos de três pessoas, mas o que temos é uma Itabira dependente de um produto cuja exaustão está datada. João Izael, fracasso. Damon de Sena, fracasso. Ronaldo Magalhães, fracasso. O grave momento exige que o itabirano tenha coragem de pronunciar o vocábulo certo. 'A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer', escreveu o alagoano Graciliano Ramos no clássico Memórias do Cárcere. Fra-cas-so. Digamos o termo, itabiranos, e soquemos pressão nos políticos.

De carona com o poeta pernambucano Manuel Bandeira, um paciente diagnosticado com 'escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado' pergunta ao médico sobre solução, no poema 'Pneumotórax', e ouve do colega de Hipócrates: 'A única coisa a fazer é tocar um tango argentino'. O drama itabirano também me remete à música, mas permaneço no Brasil mesmo, intrigado com a indagação de Tom Zé, outro ótimo nordestino, em 'Senhor Cidadão': com quantos quilos de medo, canta o baiano, se faz uma tradição?


(*) Marcos Caldeira Mendonça é jornalista e editor do jornal O Trem Itabirano