Desde 1984
Erivelton Braz
15 de Maio de 2020
Depois da pandemia

“O tempo se rói com inveja de mim. Me vigia querendo aprender, como eu morro de amor, para tentar reviver”. Esses versos da belíssima “Resposta ao Tempo”, do mestre Aldir Blanc, em parceria com Cristóvão Bastos e eternizada na voz de Nana Caymmi, mostra bem que o tempo é, de fato, implacável. 

Podemos até não perceber, mas ele acaba passando e segue um caminho sem volta. Apenas os homens, que aprendem um pouco com isso, sobrevivem às mudanças impostas por ele. O tempo passa, a vida segue seu curso e nós seguimos com ela. 

Só quem vê a vida passar diante dos olhos não percebe o quanto o tempo é precioso. Uma metáfora bonita é a do alto executivo que dedicou todo o seu tempo de vida ao trabalho, ignorando o crescimento dos filhos, os momentos em família, em nome de uma fortuna imensurável. Um dia, sofre um mal, é hospitalizado e ele vê a morte se aproximando. Ele tenta negociar: “dou tudo o que tenho e que construí para viver mais dez anos”. A morte lhe sorri e, sem dizer palavra, o leva em seus braços. O tempo é implacável e não há nada que o compre.

Por isso, a vida é tão preciosa e precisamos escolher ou definir o que fazemos com ela. E toda escolha é uma renúncia de todo o resto. Ela diz mais pelo que não somos do que sobre o que somos. Assim, há os aventureiros, os que se arriscam, os comedidos que não vivem, os que amam demais e os que amam de menos, os que não se dobram e os que aceitam as condições sem pestanejar. E os que não vivem, apenas aguentam... 

“Viver é muito perigoso”. Escreveu o sábio Guimarães Rosa, que falou como ninguém, do que é a travessia: a vida, que liga dois elos inseparáveis, vida e morte, sem descartar os mistérios que há no meio do caminho. E é justamente a passagem pelo desconhecido, caminhar ao lado do imponderável, que deixa a vida mais saborosa.

Precisamos viver e isso implica a escolha de um lado. Mas é preciso definir bem as escolhas que fazemos para não passar pela vida e não viver. Por que a vida, segundo Vinícius de Moraes, só se dá para quem se deu. 

A pandemia de coronavírus mata milhares e o mundo não será o mesmo quando tudo isso passar. Engana-se quem pensa que amanhã, se é que ele virá, será como antes. Nada será igual. E quem pensa assim, já ficou para trás. 

O coronavírus traz uma relação nova conosco mesmos e com os outros que estão ao nosso redor. E também, cria uma relação com o tempo, esse que nos inveja porque sabemos nos reiventar, feito na canção de Aldir, que nos deixou, vítima de coronavírus recentemente. “No fundo, é uma eterna criança que não soube amadurecer”. E nós, ironicamente, amadurecemos justamente porque o tempo passa. A verdade é que há um tempo para tudo e esse tempo ruim vai passar se nós nos cuidarmos para seguirmos em frente. 


(*) Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação