Desde 1984
Márcio Passos
14 de Fevereiro de 2020
Até que a morte os separe
A dúvida era seu maior tormento. Mudara ele ou mudara a mulher? O tempo foi passando e os hábitos mudando, em compasso tão natural e rápido, que nem deu para perceber quando começou. Mas que mudou, mudou. E muito. Ou mudou ele? Antes, tão carinhoso e descobrindo virtudes. Agora, chato de galocha que vive descobrindo defeitos.

Foi nisso que ele ficou pensando ao se irritar com o barulho que a mulher fazia quando virava goela abaixo alguns goles de cerveja. Que barulho chato e irritante. Só faltava ela estalar a língua. Antes, ela não fazia assim. Ou fazia e ele não percebia? A dúvida era seu maior tormento. Em sua vaga lembrança, ela era um exemplo de boas maneiras. Pegava o copo delicadamente e, sem inclinar a cabeça, tomava a cerveja em goles rápidos e silenciosos. Mas agora...

Outro dia ela apareceu para conversar escovando os dentes. Ele fechou a cara e não respondeu, até a mulher se mancar e voltar para o banheiro com a boca espumando de creme dental. Aí ele lembrou que ela nem mais se dava ao trabalho de fechar a porta do banheiro. A tampa do cesto de lixo já não parava no lugar certo e o tapete a cada momento ficava num canto. Fios de cabelo ameaçavam entupir a pia e ela, insistentemente, esquecia a lâmpada do banheiro acesa. Ele tinha medo de estar ficando chato ou velho. Mas o problema é que antes ela não fazia estas coisas. Ou fazia e ele não percebia...

Dormir sem tomar banho era impensável em tempos atrás. Noite dessas aconteceu sob o argumento de que estava muito frio e o chuveiro não esquentava. E ele ali, na dúvida. Mudou a mulher ou mudou o chuveiro? O que era quente ficou frio, ou o que era limpo ficou sujo? Ele ficava horas meditando sobre as diferenças e tentando entendê-las. A dúvida era seu maior tormento: mudara ele ou mudara a mulher?

Pior mesmo aconteceu naquele domingo em que ela resolveu desfilar toda a manhã de pijama, meia soquete, chinelo de dedo e uma horrível touca de meia sobre os cabelos. Ele não querendo ser chato, ficou calado. Não falou absolutamente nada. Ficava lendo o jornal e olhando sobre os óculos a mulher passando de um lado para outro. Ia e voltava. De pijama, chinelo de dedo, meia soquete e touca no cabelo. Ele não acreditava que aquela era a mesma de tempos atrás, que amanhecia lavada e perfumada, metida num short branquinho e blusa de alcinha da mais pura seda. Era assim mesmo, ou ele estaria sonhando? Talvez ela ficara sempre de pijama e ele não se dera conta. Agora, aí está ele criando caso...

No último domingo, durante o Fantástico, a sala foi invadida por um mau cheiro. Ela, deitada no sofá, fazia de conta que nada percebia. Era ela, ele tinha certeza. Um absurdo soltar gazes na sala... Sabia que era a primeira vez, mas nunca antes na história do casal ela fez isso.

Na segunda-feira, sentado no divã, ele pedia encarecidamente a um psiquiatra para explicar melhor aquele negócio que o padre tinha dito anos atrás. Era um tal de “até que a morte os separe” e que ele não consegue compreender mais.

(*) Márcio Passos é jornalista e fundador do A Notícia