Desde 1984
Márcio Passos
17 de Janeiro de 2020
Tonta paixão de Carnaval
Há pouco chegada na cidade grande, Lili trabalhava na agência de um grande banco e se preparava para viagem à praia com as amigas. Arrumaram pra ela uma carona com Zau, apessoado funcionário da Vale com perspectivas de futuro, pose de Marlon Brando e fanático com carros. Não se conheciam e Lili achou aquilo meio fora do normal até que os ajeitamentos da vida lhe encaminharam para outra carona, evitando viajar com aquele estranho.
Já na praia, no entanto, os estranhos ficaram mais próximos ou, melhor dizendo, se hospedaram na mesma casa, mas os gênios não eram irmãos. Se limitaram ao “ôi” ou “bom-dia” entre os dentes, até que sentaram próximos numa rodada de cerveja com a turma toda.
Lá pelo quinto ou sexto copo, ela olhou pra ele e perguntou:
- A que horas você vai voltar para Minas na quarta-feira?
- Não entendo o motivo da pergunta porque você não veio comigo e eu não lhe devo satisfação.
Esta foi a resposta curta e grossa do rapaz de Passabém, desonrando o nome da cidade onde nasceu, colocando um ponto final em qualquer possibilidade de diálogo e encerrando uma amizade que nem havia iniciado. Ela não se fez de rogada e o ignorou pelos restos dos dias da folia carnavalesca na beirada da praia. Voltaram para a cidade de origem em carros separados, como se não se conhecessem, mas viajando no carro da frente, ela percebeu quando ele, vindo atrás, cochilou e atravessou a rodovia. Primeira prova de que os diferentes se atraem.
Semanas ou meses depois voltaram a se encontrar numa turma de amigos num fim de semana na terra dele. Se olharam algumas vezes, trocaram meia dúzia de palavras e ele exibia todo orgulhoso as chaves de seu Opala muito bem conservado e devidamente lustrado.
Com arrogância de galã de novela daqueles tempos, Zau balançou as chaves na direção dela e perguntou:
- Por acaso você sabe dirigir?
Ela respondeu que sim e ele perguntou qual carro ela já tinha dirigido.
- Um jipe velho, respondeu Lili para ouvir outra provocação dele.
- Quem dirigiu apenas um jipe não sabe dirigir um Opala como o meu
Ela levantou-se num rompante, elevou o queixo na altura do por do sol, avançou sobre aquele cara mal-educado e lhe tomou as chaves da mão. Foi até onde estava o Opala, botou as chaves na ignição, ligou o carro e saiu em disparada para sua cidade, deixando Zau pra trás e de boca aberta pelo inusitado.
Ano que vem eles vão completar trinta anos de casados, comemorando com a filha Flavinha, uma história de vida juntos com cumplicidade, tolerância e muito amor. E dois carros, porque no preferido dele ninguém toca.

() Márcio Passos é jornalista e fundador do A Notícia