Desde 1984
Gabriela Gomes
13 de Dezembro de 2019
Intensidade 2.019
Só quem sobreviveu contará para as futuras gerações a intensidade do ano de 2019. Há poucos dias do seu encerramento, é inevitável uma retrospectiva das muitas tragédias que assolaram este ano, a começar pelo rompimento da barragem em Brumadinho, em janeiro.
Para alguns, esse fato já faz parte do passado, mas para muita gente, principalmente aqueles que viveram a dor desse desastre, a ferida está aberta e ainda sangra.
Para as mães que perderam seus filhos o quarto, as roupas, os pertences ainda são objetos de dor e saudades. Tantos sonhos interrompidos naquela manhã. Para os filhos que perderam seus pais, esposas que perderam seus maridos, sempre há uma cadeira vazia na mesa do almoço, um objeto que traz uma lembrança, uma música especial.
A saudade palpita junto com as batidas do coração. Nos meses seguintes, 2019 nos trouxe outras perdas drásticas, como o incêndio que matou dez atletas de base do Flamengo no centro de treinamentos do clube. Futuros artilheiros, goleiros, laterais foram silenciados nas chamas naquele dia. Sonhos de uma vida, de toda a família, interrompidos em segundos, para sempre.
Sonhos também foram silenciados no ataque à escola Raul Brasil, em Suzano (SP). Jovens morreram naquela manhã em que fariam provas, brincariam com seus amigos ou jogariam bola na aula de educação física. Tudo acabou em instantes e o trauma vivido ecoa na vida dos sobreviventes e suas famílias. No jornalismo nacional, perdemos grandes nomes como Ricardo Boechat e Paulo Henrique Amorim, assim como pessoas no ramo de entretenimento como o cantor Gabriel Gava e o apresentador Gugu Liberato.
Todas essas e tantas outras foram perdas surpreendentes, de repente, como um sopro. Onde havia vida há instantes, não há mais. Por aqui também presenciamos tristes histórias assim, de amigos monlevadenses que se foram em acidentes ou por fatalidades. Há muito tempo, um ano não traz tanto aprendizado O nó na garganta é inevitável diante da intensidade vivida em 2019. Viver o hoje nunca foi tão essencial.
Aquela manhã pode ser a última como foi com as vítimas de Brumadinho, aquele gol pode ser o último como foi com os atletas do Flamengo. Aquela palestra pode se a última, como aconteceu com Ricardo Boechat. Aquela brincadeira com os amigos pode ser a última, como ocorreu com os alunos de Suzano. Aquela viagem a BH pode ser a última, como vemos nas tragédias na BR-381, todos os dias.
A vida é esse instante. Viva-o plena e completamente. Compromissos diários podem esperar você dar um abraço mais demorado no seu marido e ouvir a história do seu filho. As louças não podem ser mais importantes do que um café demorado com a sua mãe. Um encontro com as amigas não precisa esperar tanto tempo para acontecer e nem aquela visita a uma pessoa querida. A vida é hoje, agora, porque depois já foi. A intensidade de 2019 nos mostrou isso, com inúmeros exemplos e histórias, que só quem sobreviveu poderá contá-las.

() Gabriela Gomes é publicitária e representante comercial do A Notícia