Desde 1984
Márcio Passos
13 de Dezembro de 2019
Quando populismo e gestão se confrontam
Outro dia escrevi aqui ou por aí que a proposta da Prefeitura de João Monlevade de criar um Camelódromo era, no máximo, sarna para se coçar. Mas os vereadores já aprovaram o projeto, dirão alguns. E daí? Quando que a aprovação deles significa que a proposta é boa para a população? Muitas vezes, aqui em João Monlevade e outras paróquias desse imenso e abobalhado Brasil, centenas de proposições aprovadas pelos parlamentares vão pra gaveta e dali não saem.
Nada contra os camelôs ou trabalhadores na economia informal. Num país de tantas diferenças e poucas oportunidades de trabalho, cada um tem que se virar como puder para se manter e tratar da família. A vida não está fácil para quem trabalha com carteira assinada e, pior ainda, para quem não a tem. Cada um tem mesmo é que se virar e cabe aos gestores públicos o dever político e social de amenizar isso com medidas definitivas ou mesmo com as paliativas. Mesmo porque a fábrica de boletos não para de bater na porta de todos nós.
Criar um camelódromo apenas com vontade política, no entanto, não vai ajudar em nada e pode piorar ainda mais o perverso quadro social. A ideia surgiu de uma “consulta” de um vereador ao Ministério Público, o que teria provocado ou não mais um daqueles termos de ajustamento de conduta que não ajustam nada e criam uma fantasiosa impressão de que a questão foi justiçada onde a Justiça nem entrou. Aguardem para conferir: o Camelódromo vai ser um improvisado mercado a céu aberto, onde DVDs piratas e couves serão comercializados em ambiente impróprio, sem fiscalização, sem garantia de higiene, sem responsabilidades definidas e numa guerra permanente de quem quer entrar e aqueles que não querem sair, além da revolta daqueles que pagam impostos e terão concorrentes bancados com lei e dinheiro públicos, resultados dos impostos que eles pagam.
Tanto quanto o Camelódromo vejo como um tiro no pé duas outras propostas: a criação da Guarda Municipal e a isenção do pagamento da taxa para quem consome cota mínima de água. O primeiro pela própria inconsistência de seu projeto que propõe dez guardas para cuidar de um município com quase 80 mil habitantes, sem recursos que garantem sua plena implantação e também sem garantia de salários que não a transformem numa milícia. É um governo municipal que não dá conta de todas as demandas de sua responsabilidade, tomando do Estado um dever de casa que não é seu. Se os assessores da prefeita Simone visitarem outros municípios com guarda municipal, verão que estão no caminho errado. Se ela mesma o fizer, vai jogar a proposta no lixo.
Quanto à isenção do pagamento da taxa para quem consome cota mínima de água, é um populismo de campanha eleitoral que não pode ser cumprido apenas de olho no próximo voto, mesmo porque corre-se o risco de, no futuro, ninguém pagar porque vai faltar água para todos. A responsabilidade ambiental e o respeito à receita interna necessária e indispensável, não podem ser substituídas por atitudes e pregações pré-eleitorais de duvidoso lucro nas eleições, mas de indiscutível prejuízo à boa gestão que garanta benefícios concretos e definitivos por outros temporais e nem tão sociais.
() Márcio Passos é jornalista e fundador do A Notícia