Desde 1984
Márcio Passos
25 de Outubro de 2019
A carne de onça do Buteco do Braga
O Buteco do Braga é um dos melhores lugares pra gente ir toda semana, o que, lamentavelmente, não consigo. Na última delas estive lá para saborear o ótimo chope artesanal que ele fabrica e fui surpreendido pela “Carne de Onça”, iguaria tradicional de Curitiba e patrimônio imaterial reconhecido pela Unesco, que saboreei ao lado da Cíntia, Jader e Leo.
“Delícia, delícia”, diria meu saudoso pai. E Marco Braga não deixou por menos, deu a receita e ensinou a fazer. Compra meio quilo de filé mignon, pede o açougueiro para passar três vezes na máquina de moer carne, coloque sal a gosto e comece a sovar que nem massa de pão. Ralar uma cebola de tamanho médio, misturar na carne e continuar sovando. Páprica doce na sequência, cebolinha, louro moído, cheiro verde e ervas finas. Continuar sovando e adicionar uma xícara pequena de conhaque, além de leve banho de azeite. Aí é só servir com aquelas torradinhas que se come com patê. Uma cerveja puro malte de ótima qualidade, de preferência pilsen ou lager. E correr para o abraço.
A experiência botequeira foi na quinta-feira e acordei no sábado com a receita atormentando minha memória. Fui ao açougue e bingo: tinha uma bonita peça de filé mignon me esperando. Expliquei que precisava de 500 gramas passados três vezes na máquina de moer carne. O açougueiro me olhou atento e perguntou:
- E o resto do filé?
- Só preciso 500 gramas, respondi para ouvir que só vendiam o filé todo, que tinha 800 gramas a mais.
Pedi para passar os 500 gramas na máquina e cortar o restante em bifes mais espessos. Coisa de meia hora de espera porque o açougueiro resolveu caprichar na limpeza da peça. Passei na feira para comprar os condimentos e fui ao supermercado para comprar as torradinhas. Não tinha no estoque. Rumei para outro supermercado e também não tinha. Dirigi-me à padaria mais famosa da cidade e a resposta também foi não. Deixei então para comprar na padaria de meu bairro porque lá eu já tinha visto torradinhas. Não tinha, mas a moça, na melhor das intenções prometeu fazer para eu buscar mais tarde. Paguei adiantado para não haver dúvidas e, quando voltei, estava à minha espera um pacote de torradas de pão de sal improvisadas. Não era o que o Marco Braga recomendara, mas me dei por vencido e fui pra casa sovar a carne.
Uma hora depois a “Carne de Onça” estava pronta, já no prato e decorada com as torradinhas improvisadas, geleia de fruta com pimenta, três tomatinhos e uma fatia de pepino. “Delícia, delícia” teria repetido meu pai.
O único problema é que minha esposa está de dieta de carne e outras guloseimas mais e, apesar de muito saborosa, não dei conta dos 500 gramas da “Carne de Onça”. Sobrou a metade e no final da tarde de domingo ela se ofereceu para transformar o que sobrou em deliciosos bolinhos de carne. Concordei, Eloíza botou os ditos cujos na frigideira e foi para a sala ver televisão e jogar no smartphone, dupla função que ela desenvolve ao mesmo tempo com admirável habilidade. Como você, caro leitor, já deve estar imaginando, os esperados e esquecidos bolinhos de carne se transformaram em pedras de carvão não comíveis.
Terminei o fim de semana comendo aqueles bifes mais espessos que sobraram do filé mignon. Apesar das idas e vindas, curti tudo, mas “Carne de Onça” daqui pra frente só no Buteco do Braga.

() Márcio Passos é jornalista e fundador do A Notícia