Desde 1984
JOSÉ SANA
30 de Agosto de 2019
A vida como ela não é? Será?
A questão é exatamente esta: fomos sorteados para viver depois de enfrentar longa fila como aquelas famosas do antigo INSS (acho que hoje melhorou com as senhas).
A fila andava. O que queríamos era uma oportunidade de viver no PLANETA PROBLEMA. Fomos alertados: "Você vai, vai pegar pesado, se passar no teste sobe na sua evolução pessoal". Ficávamos indecisos vamos, não vamos. Mas, um belo dia, resolvemos ir e nascemos dentro de um útero. Brotamos. Saímos.
Quando a parteira nos pegou pelos pés, se tivesse alguém inteligente na sala de parto teria dito: "Coitado" Mas ninguém diz. Dão os parabéns aos pais e dizem: "Lindo" O lindo vai pra vida. Quando entra na escola começa a luta da tal competição que nunca mais acaba. É por melhores notas no colégio é pelos elogios dos professores, é pela expectativa de uma prova, um Enem ou Vestibular. A vida se torna um vestibular feroz. Chega a hora de definir o que seremos diante da sociedade: jornalista, médico, advogado, porteiro, faxineiro, balconista, coveiro, desempregado, nada??? Se perdermos tempo, ficamos velhos e nada alcançamos.
Chegamos depois ao alto do morro, o momento em que começam os declínios e as lutas ficam ainda mais difíceis. Daí pra frente é que o bicho pega. Tornamo-nos frequentadores assíduos de hospitais, clínicas, consultórios médicos, farmácias. Melhor seriam os bares, botecos, mas nossa presença nas áreas de saúde sobressai.
Vai chegar a hora da despedida. Sabe o que mais tenho medo sobre a morte? Eles dizem de olhos arregalados um para o outro: "Fulano morreu" O outro responde: "Puxa De quê?" Sabe por que querem saber de quê? Está na cara: o sujeito tem medo desse "de quê" que não quer ter.
Estudo muito sobre o caso e acho que o mundo tomar o tempo para velar um morto por 24 horas é muito tempo e, depois, esquecer rápido. Como esquecemos rápido Antigamente havia o luto. Hoje, o velório vira festa, como riem e contam piadas Na missa de sétimo dia quase não se lembram do defunto. Segundo Nelson Rodrigues, de manhã a viúva está velando o marido à tarde é vista na porta de sua casa chupando chica-bom.

JOSÉ SANA, é jornalista e professor