Ponto e Vírgula
8 de junho de 2018

Tempo da delicadeza

Maria Emília Santos, conhecida na Vila Tanque por Sá Lia, costumava presentear os amigos com flores e rosas colhidas de seu próprio jardim. Vizinhas de porta, durante anos, ela e minha mãe trocaram rosas em datas especiais como dia das mães, Natal e, claro, aniversário. Antes, cuidadosamente, retiravam os espinhos e enrolavam o caule em papel de presente. Fui testemunha disso e, às vezes, até o portador das delicadezas.
Quando nasci, Sá Lia, já experiente mãe de oito filhos, ajudou minha mãe com os primeiros banhos e a curar meu umbigo. Uma ajuda que pouco se vê hoje entre vizinhos. Ainda na infância, passava horas em sua casa, brincando em seu quintal, cheio de ervas medicinais e hortaliças, ou mesmo conversando com ela por horas a fio. Sentados nas cadeiras que até hoje estão em seu alpendre, falávamos sobre amenidades e assuntos diversos, coisa que só adultos de coração bom conseguem tratar com crianças de quatro ou cinco anos. Depois que cresci, afastei-me de sua casa, mas continuei com a admiração e observando seus gestos. Além da minha mãe, era comum ver uma de suas filhas sair de casa com uma rosa nas mãos para entregar a algum vizinho.
Quando meu pai faleceu, há nove anos, Sá Lia não foi ao velório por problemas de locomoção. Mas Simone, sua filha mais nova, foi e entregou uma rosa enorme para minha mãe, que a colocou sobre o peito do meu pai. Não me esqueço disso porque fui às lágrimas ao relembrar do gesto repetido em tantas vezes em momentos de alegria.
Na última quinta-feira (31), Sá Lia faleceu, aos 75 anos. Deixou o marido, Sô Duir, com quem viveu por 57 anos. Deixou ainda filhos, netos, sobrinhos e muitos amigos. Ao me comunicar da morte da vizinha, minha mãe me pediu para levar dois botões de rosa, já que não há mais jardim na casa dela. No velório, ela pessoalmente as depositou entre as mãos da amiga, com ajuda da mesma Simone, que foi às lágrimas, como eu fui no velório do meu pai.
Nesses tempos de intolerância, violência sem limites e mais atenção à vida virtual e às redes sociais do que com os vizinhos de porta, o exemplo da amizade de minha mãe e Sá Lia funciona como alerta: precisamos de mais delicadeza. Se a palavra ensina, o exemplo arrasta. Nunca foi tão importante sermos mais nobres e menos rudes com os outros. A gentileza não sai de moda e deve ser permanente. Na era de Donald Trump, Jair Bolsonaro e pedidos de intervenção militar, a lembrança das flores trocadas acende as esperanças de tempos melhores.