Cotidiano
11 de maio de 2018

Coragem

Uma amiga veio me contar que decidiu não ter filhos. Casada há 5 anos e se aproximando dos 35 anos de vida, ela e o marido optaram por não ter herdeiros e essa é uma decisão definitiva, segundo ela.
Corajosa. Eu, como mãe, respondi que compreendia sua decisão e que a considerava tão corajosa quanto a de ter filhos. Eu não escolhi ser mãe, ganhei um presente surpresa. Meu filho veio sem planejamento, nasceu prematuro, no final da minha faculdade e no início do meu casamento. Foi um susto O melhor susto do mundo. Estava longe da família e dos amigos e realmente foi desafiador.
Optar por não ter filhos é muito particular. Não imagino como seria a minha vida sem aquelas bochechas rosadas e aquela boca sem dentes, sorrindo nas madrugadas em claro. Aqueles pezinhos rechonchudos que eu mordia de levinho e que ele amava. Não me imagino sem aquela mãozinha delicada, que dorme segurando a minha, desde o hospital, até os dias de hoje (quando ele já tem 7 anos).
Não me imagino sem ter que correr o tempo todo, lavar roupas pequeninas, infinitas meias e sempre ter que comprar novos calçados infantis. Não, eu não me imagino sem aquele beijo melado, sem o abraço apertado e o enforcamento recheado de carinho. Não me imagino sem aqueles pezinhos imundos, aquelas roupas manchadas e aquela gargalhada deliciosa.
Não me imagino sem recolher infinitos brinquedos pela casa, acolher o choro sem motivo ou cantar a mesma música, pela milésima vez. Não me imagino sem essa fábrica de beijos, sem o meu “amor da vida” e sem ter que vesti-lo com a mesma fantasia, por incontáveis dias.
Não, não me imagino viver sem ter aquele frio na barriga antes das injeções, a aflição quando o nariz começa a escorrer e até da agonia após o primeiro sinal de febre, eu não me imagino viver sem.
Não me imagino viver sem ver como ele se parece comigo, admirar suas atitudes tão maduras e ouvir com paciência seus argumentos para não ir para o banho. Não, eu não me imagino sem ter que pedir para ele parar de correr, também para cumprimentar as pessoas e ainda para dizer obrigado.
Filhos realmente dão muito trabalho. Um trabalho constante, sem hora e sem lugar para terminar. E a gente não quer que termine. Eles podem nos vomitar no meio da festa, pedir para fazer coco em alto e bom som e também podem chorar, gritar, fazer aquela birra cinematográfica sem motivo, só para chamar a atenção.
Mas eles têm o melhor cheiro do mundo, o mais caloroso abraço e o beijo mais carinhoso. Eles são a certeza das dúvidas que nem sabíamos que tínhamos, são a felicidade em forma de gente, são a razão para que continuemos a seguir em frente e são o amor, mais puro e mais completo.
Minha amiga realmente é muito corajosa em optar por não ter filhos. E eu, como mãe, também acho que sou.

() Gabriela Gomes é publicitária e responsável pelo setor comercial do jornal A Notícia.