Ponto e Vírgula
6 de abril de 2018

Vai ter forró no céu

Minha sogra, Dona Maria, Maria Divina, Maria de Sô Alvim, sempre disse que queria dançar forró no céu. Para tanto, quando chegasse seu dia, deveria ser enterrada de sapatos. Pediu à filha mais nova, Renata, que cuidasse pessoalmente dos últimos preparativos. Ela já tinha definido o vestido, queria colar, maquiagem e, claro, os sapatos “porque não se dança descalço”, dizia.
Ouço essa história há quase 20 anos, desde quando comecei a namorar a Renata, com quem me casei e sempre achei graça da coragem de Dona Maria de lidar com a própria despedida. E justamente essa vitalidade, o bom humor e a forma leve de viver, mesmo diante das dificuldades, fizeram dela uma pessoa diferenciada.
Esbanjando disposição, reuniu filhos, genro, nora e amigos numa viagem de três dias a Caldas Novas para celebrar os 90 anos de vida. Isso, depois de percorrer os mais de 800 km de ônibus, dando gargalhadas. Lá, dançou, banhou-se nas aguas termais das piscinas, bebeu uísque, sorriu e se divertiu muito. Um aniversário memorável
A alegria dela era contagiante, uma identidade. Até quase os 87 anos, frequentou religiosamente, todos os sábados, o Forró dos Aposentados. Isso, por mais de duas décadas. Chegou inclusive, em anos anteriores, a voltar para casa de mototaxi. Ali, fez também grandes amigos.
Dona Maria casou se com Alvino Frias em Itabira, no início da década de 1940 e não teve vida fácil. Mudou-se para João Monlevade e morou em vários bairros, entre esses, a Pedreira, de onde sempre se recordava com saudades e Cidade Alta. Com os filhos chegando um atrás do outro, precisava aumentar a renda familiar. Descobriu nos bolos e quitandas, que os filhos vendiam na porta da Usina, a forma de ajudar no sustento da casa.
Como todo mundo, teve altos e baixos. Sentiu muitas perdas ao longo da vida, entre essas, todos os irmãos, os pais e o marido, de quem cuidou por 12 anos com a resignação e fé dos que cumprem uma missão. Boa vizinha, manteve amigos leais por mais de quatro décadas, no bairro de Lourdes, onde morava. Perdeu também dois filhos, Irene e Darci, no mesmo ano de 2013 e, mesmo assim, manteve-se de pé. Mais triste, é verdade, mas com bom humor.
Apesar de sempre falar na morte, sentia que ela estava próxima e lamentou muito saber que essa era iminente. Superou, no último ano, dois AVC’s que a baquearam, mas não a derrubaram. Não foi à nocaute, mas ficou nas cordas, lutando sempre e sorrindo cada vez menos.
Um tombo no quarto a derrotou no último sábado e ela se foi, na segunda-feira (2), faltando exatamente um mês para completar 93 anos. Além de muitas memórias, saudades e inúmeras histórias, ela deixa os filhos Maria Helena, Gerson, Clério, Fátima, Elisete, Edna, Airton e Renata. Também ficam 17 netos, 30 bisnetos e dois trinetos. A mim, me tratava como filho mais novo, nunca como genro. A lição de Dona Maria foi a de que sempre é preciso gostar da vida, para que a vida também goste de nós. Foi dançar forró no céu, do jeito que sempre quis. Obrigado, Dona Maria. Aprendemos com a senhora que a vida, mesmo dura, pode até parecer uma festa.

() Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação