Papo Aberto
2 de março de 2018

Não estou, sou

Talvez meu respirar incomode. Meu opinar cause ranço, temor, raiva. Quem sabe meus passos causem ânsias? Às vezes, meu silêncio cause náuseas, principalmente naqueles que querem palmas e pedidos de opiniões. Não, não caio nessa, como já caíram vários.
Minhas posições podem causar intolerância. Minhas letras, aversão. O que não devo causar é indiferença. E isso já me causa vontade de ser e de escrever. Causando ou não.
Medo, nunca tive. Prisões, desconheço. Nem as convencionais e muito menos as da alma. Convenções, desconverso. Admiração, só do passado, das glórias de quem as construiu. Dou meus passos à revelia dos escroques. Passos firmes, só meus. Sem vagar.
Posso estar ouvindo Creedence ou Caetano, seja o que for. Mas ouço. Não ouço só as vozes que convém aos servos da situação. Sou oposição. Ao podre, ao fardo, ao escroto. Sou a voz que dilacera o peito dos covardes, doida para sair, em alto e bom som. Em brado. Em som opaco e surdo. Sou a voz dos que têm o que falar. Sou o coração pulando dos que vivem, não dos que sobrevivem por um prato de comida do restaurante badalado ou pelo passeio da moda. Ou será pela festa vazia que emoldura faces. Não faces, mas "feices".
Sou o martelo chato do domingo de manhã, a garganta da araponga, a furadeira insistente, a obra intermitente, a música do carnaval, o ranger do isopor, a batida da porta, a bateria mal tocada, o gemido da meretriz fingida, a verdade dita e repetida dos idiotas de plantão. Sou o saco que não se puxa. A referência que não se faz. Principalmente, aquela que não se quer fazer, mas assim mesmo é feita, pois, em caso contrário, postos e pratos se esvaem.
Sou a guitarra que não para no sábado à noite. A verdade diante da hipocrisia. A prece da moradora de rua presa com um baseado. E também o sono do senador que carrega meia tonelada de pó para clientes e amigos.
Sou o Brasil. Capenga, trôpego, assaltado, violado. De costas marcadas e repleto de incertezas, certezas e fugas. De injustiças latentes. De risos e choros. Mas, acima de tudo, sou a vontade de se dizer o que se quer, sem medo de represálias. E quais serão elas? Funcionam? Só para os bajuladores hipócritas. E esses não são. Apenas estão. Por estar. Respiram, comem, bebem e transam para fazer "selfies". Eu não passo no mundo para agradar quem fala mais alto ou brinca com os destinos de forma sorrateira.
Desculpe Mas eu não estou. Eu sou.

() Luiz Ernesto é jornalista, escritor e subeditor do A Notícia