Papo Aberto
9 de fevereiro de 2018

Carnaval na ladeira do quebra-queixo

Realizei o sonho de ser carnavalesco naquele ano. Quando vi a escola descendo a ladeira do quebra-queixo não me contive. O nó na garganta e as lágrimas poucas se juntaram ao meu suor e tive vontade de ter todos na ala principal.
Minhas mãos erguidas ditavam um ritmo cheio de alegria e energia esfuziante, sem qualquer compromisso com a maravilhosa bateria. O compromisso era com os confetes, que choviam e coloriam ainda mais a minha noite. A mais linda de minhas noites. Era eu e o Carnaval.
Uma nuvem de alegria, verde-oliva, pairava sobre todos os membros. Enredo, bateria pulsando, coração junto, alegria, alegria, beijos, bêbados felizes, morte de relógios, velório de amanhã, choro, riso, cheiro de alecrim, o tempo parado, leve, esperando toda aquela felicidade passar para, enfim, ditar seu ritmo.
Mas realizei meu sonho de ser carnavalesco, como disse. Comecei pela letra do enredo, que falava de um amor torto, sofrido e forte, alguma coisa de seios, olhos, sorrisos e desencontros. Lembrei, sorriso de Carmem Miranda. Falava também de uma poesia escrita em meu rosto pelos dedos suaves de uma poetisa bêbada. Falava de estradas por onde nunca passei, montanhas que nunca subi e amores que nunca tive. Gritos e olhos sangrando. Apesar de pesada, a letra era leve. E todos dançavam com uma alegria contagiante, inclusive, a poetisa bêbada.
A escola seguiu pela rua esquerda e foi parar na esquina de Eulália, me enchendo de orgulho e satisfação. Estava eu ali, em meio à maior maravilha do mundo, em êxtase. Sendo personagem do que há de mais lindo na história. A manhã nos aniquilará, mas ela está longe.
Quando o sol desponta e a bateria abaixa os braços suados, chego à conclusão de que orientei a folia. Meu último gole vem com a constatação de que o Carnaval e seu profano, nem tão profano assim, são uma das razões da vida. Uma vida que muitas vezes perde a razão na quarta de cinzas. O dia em que o sonho de todos os carnavalescos está realizado e a poetisa bêbada acorda, sã e de boca seca, com seus dedos suaves, deslisando poesias em rostos marcados.

() Luiz Ernesto é jornalista, escritor e subeditor do A Notícia