Papo Aberto
19 de janeiro de 2018

A serpente de Cacaso

Mais um ano se inicia e, claro, nos pede muito. Sendo assim, sejamos tudo de melhor que ele nos pede, deixando o inútil e insosso para trás.
Sejamos mais, então, a serpente na canção de Cacaso. O milho na voz de Djavam, demorado na semente. A pedra no caminho que inspirou Drummond. As gargantas e ideias vorazes de Caetano e Bethânia. Inclusive, que sejamos mais a Bahia. Boa, talentosa e malemolente. Essência de tudo e com a plena aceitação de que ela é o Brasil. Que jamais sejamos minha dor de cabeça por falta de comida.
Sejamos a paixão que sufoca e arrebata, jamais a que reprime, deprime e não deixa ir. Mas que vamos assim mesmo, lutando contra o sufoco do pão que se compra. E assim sempre foi.
Sejamos aquele baião musicado. E o samba rancho também. A poesia inspirada pelo Pernambuco de Lenine e pelo silêncio ensurdecedor de Bárbara, trazendo paz. Sejamos tudo isso. Sejamos a aura do apartamento de Vinicius de Morais em Ipanema, regado à água tônica, gim, asmas, espasmos, poesia e Edu Lobo. Sejamos a atmosfera do Beco das Garrafas. Sejamos o sufocar da demagogia asquerosa de quem só quer poder. Sejamos a inocência dos verdadeiros cascões, magalis e cebolinhas. Abaixo os falsos. Viva Maurício de Souza Louvemos seus personagens dos quadrinhos.
E como não gostam que falemos de políticos e de política, acho que pela aura de Natal e Ano Novo e das festas que não param, vamos falar de jardins e urubus. Dos panetones mofados que sobraram e de suas passas deprimidas. Das bajulações que não valeram a pena em 2017 e das que não valerão em 2018.
Sejamos mais fieis a nós mesmos e não valorizemos a sina de viver no breu e na treva, entre fel e histórias ruins. Vamos carregar luz e solução.
Sejamos a água da Cachoeira das Maças. Sejamos a serpente de Cacaso. Sem asma e com gim.

() Luiz Ernesto é jornalista, escritor e subeditor do A Notícia