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25 de agosto de 2017
OLHARES: Debater a cultura do estupro é necessário
EDUARDA LUIZA

Imagine o cenário: você sai de casa numa segunda-feira pela manhã para sua rotina do dia, passa pela pista de caminhada do seu bairro, onde você nunca teve problemas e onde passa gente o tempo inteiro e é surpreendida e jogada no matagal por um homem que te manda ficar em silêncio e não olhar para ele, pois têm pessoas passando por perto. Consegue sentir o desespero? A dor? A raiva? Parece surreal, né? Coisa de novela dramática, mas que aconteceu na última segunda-feira, dia 21, no bairro Baú, em João Monlevade, por volta de 8h30 da manhã. E esse foi só mais um de vários e vários casos de tentativa de estupro no país.
Antes de entrar na discussão de fato, quero explicar que “Estupro é a prática não consensual do sexo, imposta por violência ou ameaça de qualquer natureza. Qualquer forma de prática sexual sem consentimento de uma das partes, envolvendo ou não penetração, configura estupro” (Joanna Burigo para a revista Carta Capital). Dá para entender? Sexo sem consentimento é crime e é um absurdo que alguém se ache maior e superior a outra pessoa a ponto de fazê-la fazer algo contra sua própria vontade.
Você sabia que 70% dos casos de estupro são em crianças e adolescentes? E que no Brasil, em 2014, ocorria um estupro a cada 11 minutos? Você sabia que ainda existem pessoas que justificam (como se fosse justificável) o estupro utilizando desculpas banais e absurdos como um short curto ou que a vítima estava provocativamente sensual? Que muitas mulheres têm medo de denunciar, pois até mesmo a força policial às culpa? E que 70% dos agressores são pessoas conhecidas da vítima?
A cultura do estupro é muito mais profunda que só o sexo sem consentimento, ela tem a ver com toda a ideia por trás dela: com a hipersexualização de crianças e mulheres, como nas músicas, novelas, propagandas e afins. Ela tem a ver com a falta de credibilidade e de ajuda às vítimas, onde muitas vezes elas é que recebem a culpa e, além disso, existem as pessoas que não fazem nada e, ainda por cima perpetuam a ideia machista e sexista de preconceito e sexualização.
Quantas são as mulheres que chamam umas às outras de nomes pejorativos e ameaçadores por elas serem diferentes ou por não terem vergonha de si e de seu próprio corpo? Quantas não são as pessoas que olham e “secam” com um desejo desrespeitoso uma mulher, ou criança, ou um menino (pois existe estupro em homens também) no meio da rua. É muito fácil encher o facebook de textos falando que o estupro é errado, se você ainda finge que não vê sua amiga sendo espancada pelo marido ou finge que não vê a colega de trabalho cada dia mais depressiva por conta de violência verbal e psicológica. Falar e fazer são duas coisas diferentes e se a sociedade não reagir e não mostrar que não irá tolerar esse tipo de crime, casos como o de segunda-feira não conseguirão ser levados para a polícia e pessoas podem não ter o mesmo “final feliz”, como ocorreu.

EDUARDA LUIZA é monlevadense, tem 18 anos e estuda artes e design na UFJF
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