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Ponto e Vírgula
25 de agosto de 2017
Imigrante, meu irmão
Erivelton Braz

Dedicado à memória de Jean de Monlevade e a todos os imigrantes que seguiram seus passos e construíram essa cidade

Imigrante, tu és meu irmão. És o estrangeiro que chega sem hora marcada. Adorável intruso. És também o meu olhar alheio sobre tudo aquilo que amo e sinto. Tu, o que vens de outras localidades, estás no entre lugar, como se estivesses aqui e, ao mesmo tempo, não. Chegas e amas a terra que não é tua. Edificas a vida. Aprendes tudo do lugar e crias o sentimento de pátria para com a terra nova.
Imigrante, tal qual areia carregada pelo vento da praia, chegaste. Estás no estrangeiro e aprendestes a amá-lo, aprendestes a cuidar dele como se cuida de um adotivo, ou como um filho vê a mãe alheia que lhe acolhe. Imigrante, meu irmão de terra. Tu tens na pele o sol de outros mares e a cor de uma cultura outra.
No entanto, partilhas comigo o que sabes e o que aprendestes na travessia. Celebras, como se fossem seus, os meus costumes nativos. Divides a herança deste nosso lugar. Amigo, o que sabes daqui senão que a terra dá bons frutos? Tu, que com teus braços longos, ajudas a engrossar a grande massa de trabalho e de riqueza. Juntos, ceamos de tudo o que plantamos. Porque neste lugar que escolhestes para ser teu, também, há o resultado de teus esforços somados aos meus.
Oh amado desconhecido Tens saudades da tua origem? Tu, o que chegastes aqui com algumas malas e muitos sonhos, és talvez o mais apaixonado por esta outra que te acolhestes. Sim. Porque não nasceste aqui. Mas, dentre tantos locais, estás aqui porque queres. Estás aqui por vontade própria. E é essa vontade que te torna um filho amado e faz de teu trabalho sagrado.
A terra, imigrante, é nossa. E tu a tomaste para ti, da mesma forma que uma criança escolhe um presente na loja de outra cidade para nunca mais se separar dele. Tu reclamas daqui? Indigna-te com os problemas que por aqui são tão antigos? Sim. Porque aqui também fincastes as raízes e aprendestes a absorver o que temos de bom e de ruim.
Também, aqui, criastes teus filhos, que são mais de minha terra do que tu mesmo. Teu filho, que agora é como a mim, é fruto deste lugar amado, mesmo tendo no sangue a memória de tua origem. Olhas para ele como a extensão dos teus sonhos. E ele, que sabe de teus caminhos passados, também os reconhecem. Porém, aqui eles vivem e amam a cidade que deixaste como herança de vida.
Meu irmão de família alheia. Tu sabes que o lugar em que te encontras, muitas vezes, é ingrato contigo. Tivestes alguma porta fechada na cara? Tivestes alguma dificuldade? Tivestes o quê? Mas, ainda que isso seja verdade, não tivestes medo de arriscar os teus projetos. Por isso, és um vencedor. Porque vence, muitas vezes, não o exatamente bem sucedido vence aquele que não tem medo de arriscar. De molhar o corpo na água fria para cruzar a piscina no inverno vence o que tenta, o que se arrisca. Atirar-se rumo ao desconhecido é uma forma de liberdade. E tu és livre, como és.
Imigrante, com o peito em pedaços, divides o amor por essa terra que definiste como tua. Eu sei que nunca esquecerás de onde vistes. Nunca darás como morta a terra em que nascestes, eu sei disso. Sei, porque tens tatuado nas veias, o teu lugar. Mas o aqui também está em ti. Essa cidade nova tem muito a contribuir contigo, com os teus caminhos. Estas ruas nossas são também o caminho de teus pés. Tudo aqui também é teu. Porque a terra não pertence ao dono, por nascimento. Ela não é apenas de quem tem umbigos enterrados ou coisa parecida: a terra é de quem a sabe amar.

Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação
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