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Ponto e Vírgula
11 de agosto de 2017
O querer da insatisfação
“Todo o dia ela faz tudo sempre igual... e me beija com a boca de café”, cantou Chico Buarque, revelando que o cotidiano pode matar o amor. Se o beijo trivial, pós café da manhã, tem algo de ternura por um lado por outro, mostra que a rotina e a repetição dos gestos só tira o brilho das coisas.
O gostoso da vida é a surpresa. Sem ela, a existência fica chata, previsível. O poeta Dante Alighieri disse que o inferno é a repetição. Os mitos gregos também falam do castigo que se repete diariamente, como o de Prometeu que tinha o fígado devorado por uma águia diariamente e que, todos os dias, o órgão regenerava-se para que a ave o devorasse novamente. Isso, por 30 mil anos. Esse círculo vicioso mata qualquer possibilidade de esperanças.
Surpreender-se com o novo, ou mesmo com o velho (por que não) é uma ventura, que colore e dar sabor à vida. Vivemos muitas repetições e, segundo estudiosos (veja o ótimo “O Poder do Hábito”, livro do americano Charles Duhigg,) que mostra como o simples mudar de hábitos pode trazer mudanças substanciais à vida.
Tem gente que se acostuma com tudo. Com a dor, com a opressão, com a falta de vontade, com a separação, com a morte, com a vida dura, amarga dos canaviais e até com a prisão.
Mas tem os insatisfeitos. Aqueles que não se conformam com o básico, os que querem e sonham sempre com o impossível. Os que negam, quando a regra é ceder. Há aqueles que, como os Stones, não conseguem se satisfazer. Mesmo que tentem. Nunca me esqueci da metáfora do pelo do coelho, presente no “Mundo de Sofia”. Os inquietos, os que ardem, os que arriscam, querem ver o mundo do alto, ainda que seja do lugar menos confortável.
Sem pudor, acredito que viver só vale a pena para quem sai da casca. Para os que dizem chega ao sapato apertado, ao nó na gravata e garganta, á opressão de uma vida mesquinha. Só vale para quem tem coragem de tomar as lufadas de vento, os que vão para a rua e bebem a tempestade. Vida boa é quente ou fria. Nunca morna ou mais ou menos. Viver é negócio perigoso, disse Rosa. E viver é para quem tem coragem.
O homem não foi feito para ficar parado. O homem não foi feito para se enraizar. Dizem os espiritualistas que o espírito evolui nascendo e morrendo diversas para, só assim, encontrar a perfeição. Isso é sinal de que é preciso sempre ir além. Seja nesta vida ou na próxima (se é que existe outra).
Daí a fascinação pelos mambembes, pelos circenses e ciganos, cujas vidas não cabem nos limites comuns. Eles experimentam caminhos, conhecem lugares e, mesmo que retornem às cidades, nunca mais a veem do mesmo jeito. Visitaram tantas outras que desaprenderam o que sabiam e enxergam com outros olhos os mesmos lugares velhos conhecidos. Assim, deve ser a vida. Um aprendizado em busca do novo, não com gosto de café, mas de insatisfação. Por que o novo, inevitavelmente, sempre vem.
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