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Papo Aberto
9 de junho de 2017
Sem meio de ser ambiente
Luiz Ernesto

Sentado no velho banquinho de jacarandá, logo abaixo da janela de imbuia azul desbotada, o filósofo sem delação premiada, Wandão Madruga, está preocupado. Mão no queixo. Olhos desolados que fitam longe. Mais precisamente o verde da montanha. Que de cinza já parece negra, coberta por fumaça tímida.
Lá dentro, o velho radinho de pilha repete, desanimado, que no Brasil matam uma área de floresta equivalente ao estado do Sergipe, todo ano. O extermínio o entristece. A noite fria cai e logo após a velha TV em preto e branco descrever a andança das águas pelo país, o assustam os relatos da barbárie, no massacre cruel a cedros, perobas e jequitibás, principalmente no seio da floresta amazônica. É o verde caindo clandestino e virando dinheiro para alimentar uma ambição desmedida e insaciável.
As reportagens do velho jornal do armazém trazem, mesmo que com devido atraso e tom amarelado, mapas, tabelas e fotos das áreas mais devastadas pelos fazendeiros de fachada e madeireiros criminosos nos estados do Amazonas, Acre, Rondônia, Pará, Mato Grosso e Maranhão. Mas o mal se alastra rapidamente Brasil afora. Falam também de uma ridícula fiscalização, mantida por uma fatia irrisória do orçamento nacional, ou do que sobra dele depois da corrupção e da propina.
Num arremedo revoltoso, Wandão mostra o queixo marcado e extravasa o último grunhido de pesar diante do crime ambiental: “Se cuidem Primeiro foram os índios, de tanto teimar em ser os donos da terra. Depois os negros, de tanto sofrer para alimentar o luxo da aristocracia burra. Depois o Herzog, de tanto escrever o que não devia. Agora é a vez de nossas árvores, micos e tucanos. Depois seremos nós, pobres sobreviventes do caos”.
Após toda a retórica, restou ao nosso filósofo acompanhar uma avalanche de opiniões tecnocratas, outras poéticas, noticiários conclusivos e soluções a granel. Restou um amontoado de especialistas em tudo e em nada, despejando teoremas acadêmicos de alimentar biblioteca. Restou uma reportagem dizendo que mataram outro Sergipe.
Restou o velho banquinho de jacarandá, lá fora. A condição de sobrevivente acuado, lá dentro. Restou o caos, a devastação e a incerteza de futuro. E um Dia Mundial do Meio Ambiente a se comemorar. Num mundo sem meio de ser ambiente.

Luiz Ernesto é jornalista, escritor e subeditor do A Notícia
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