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Ponto e Vírgula
7 de abril de 2017
Acorda ou d’accord?
Erivelton Braz

Chico Buarque de Holanda escreveu a letra de Joana Francesa na década de 1970. Em seu refrão, a canção diz “acorda, acorda, acorda, acorda, acorda”. A repetição forma o som da palavra “d’accord” que, em francês, significa “concordo, estou de acordo”. Um sutil e paradoxal jogo de palavras entre o chamado para acordar a realidade ou ficar de acordo com ela.
Diante do atual cenário político, social, cultural diante de serviços públicos essenciais, como saúde, segurança pública, educação, segurança, saneamento básico, infraestrutura e uma série de outras questões, João Monlevade está mais para o “acorda” ou para o “de acordo”? Como estão os monlevadenses em relação à realidade do município em 2017, duzentos anos após a chegada do pioneiro desbravador Jean Antoine Félix Dissandes de Monlevade?
Em outra canção, o Skank cantou ainda nos anos de 1990 que “a nossa indignação é uma mosca sem asas, não ultrapassa as janelas de nossas casas”. Atual, atualíssimo. Não só no que diz respeito à nossa cidade, mas para todo o Brasil. Parece que, diante de tanto absurdo, preferimos nos calar. Indignados solitários e mudos, inclusive, este que escreve. Os poucos que saem de suas casas representam massas de manobra de grupos políticos ligados ao Cruzeiro e Atlético da política nacional: “petralhas e lulistas” contra os “coxinhas” e “paneleiros”.
Voltando à questão local, João Monlevade pode e merece mais. Uma cidade que tem como herança o pioneirismo e o empreendedorismo do francês que aqui chegou e ergueu uma fábrica que forjou o futuro, está atrás de muitas outras quando o assunto é inovação. Uma pena. Temos a faca e o queijo à frente. Falta coragem para cortá-lo.
Por exemplo, a cidade é polo universitário regional, com duas universidades públicas, duas grandes de ensino privado e escolas de ensino à distância, inclusive, para graduação e pós. Muito bem. Mas e a educação básica? Como anda? E as escolas públicas, têm estrutura, profissionais motivados, projetos de destaque?
Quando o assunto é saúde, outro exemplo. O maior hospital da região, o Margarida, vive numa crise sem fim e está mergulhado na obscuridade da total falta de transparência. Não se sabe ao certo o que, de fato, ocorre ali. Nos postos de saúde, faltam médicos e consultas são marcadas para três, quatro meses. Ainda no hospital, exames primordiais para salvar vidas e que deveriam ser feitos em minutos, demoram horas por falta de profissionais em laboratórios. Crianças esperam eternidades para serem atendidas. Cirurgias simples de ortopedia são enviadas para BH por falta de brocas. Exames como tomografias não são feitos devido a quebra em equipamentos, segundo médicos. Fora isso, funcionários estão sem reajuste e médicos com salários atrasados completam a dança da miséria.
Estamos falando de João Monlevade, cidade rica, cidade polo comercial, com receita de R$185 milhões. No entanto, ainda se encontra ruas sem calçamento, casas com fossas sépticas e esgoto despejado no rio sem tratamento. Quando teremos uma educação moderna, de referência? Quando a saúde será melhor nos postos? Quando o Margarida voltará a florescer na transparência, no diálogo e na gestão eficaz? Quando teremos uma cidade que pense grande e assuma sua vocação pioneira? Acorda, acorda, acorda, acorda. Ou seria d’accord, d’accord, d’accord, d’accord? Qual o melhor refrão? Quem foi mesmo Joana Francesa? Quem é Chico Buarque?

Erivelton Braz é editor do A Notícia
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