Desde 1984
Gabriela Gomes
29 de novembro de 2019
João e Margarida
João e Margarida foram casados por 45 anos. No mês passado, João faleceu depois de uma ferrenha luta contra o câncer. Margarida perdeu seu companheiro de todas as manhãs, das caminhadas pela praça ao entardecer e das gargalhadas ao fim do dia, ouvindo anedotas.
Preocupados, os três filhos do casal estão atentos às reações da mãe, já a convidaram para se mudar e morar com eles. Ela prontamente negou, e mais uma vez, demonstrou sua leveza em lidar com os desafios da vida. “Nesses 45 anos eu e João vivemos muitos perrengues, que vocês não imaginam. Faltou dinheiro para pagar a luz e passamos o nosso primeiro aniversário de casamento no breu das velas. Como rimos disso depois. Contamos as moedas para comprar batatinhas para a primeira papinha do seu irmão mais velho, reformamos sozinhos nossa casa, assim que a compramos, depois de tanta dificuldade. Eu quero continuar aqui, pois minhas melhores memórias aqui estão”, disse.
Margarida lembrou também dos bilhetes que João deixava nos livros, debaixo do travesseiro e espalhados pela casa. Frases simples, rabiscadas num pedaço de papel: ‘Você está tão linda hoje’ ou ‘Só pra te lembrar o quanto eu te amo’. Isso ele fez até seus últimos dias e ela ainda se emocionava como da primeira vez.
De família simples, o casal sempre foi muito discreto entre os vizinhos, mesmo no fim do mês, quando saiam distribuindo sopa quente aos moradores de rua. João também adorava tocar violão e toda a vizinhança conhecia o som dos seus acordes.
Margarida nunca trabalhou fora, mas foi a provedora do lar ao lado do marido. No início do casamento fez uma linda horta e vendia verduras, depois começou a fazer bolos caseiros, pequenos consertos em roupas e trabalhos com bordados. Era tão responsável quanto o marido pelo sustento da casa e quando ele ficou desempregado, deu conta do recado.
Como todo casal, passaram por várias crises ao longo dos anos, mas nunca dormiram sem se falar. Discussões intensas sobre a criação dos filhos, sobre o alto valor da conta de luz ou sobre a forma como cada um via determinada situação. Com respeito, mesmo que pensando diferente, eles tentavam enxergar um ponto comum para resolver o problema. Na maioria das vezes deu certo. E quando não deu, eles deixam o silêncio e o tempo agirem.
João tinha um bom coração. Desafiado pelo fumo, largou o cigarro quando o primeiro neto nasceu, há 15 anos. O câncer lhe chegou e ele travou uma batalha contra a doença.
João e Margarida sempre serão um casal, como ela mesmo diz. “João não está comigo fisicamente, mas me acompanha o tempo todo. Está em nossas músicas, quando eu ligo o rádio, está na poltrona funda do sofá, que ele sempre se sentava, está no cheirinho do bolo de laranja, seu preferido. Mais que isso, João está no exemplo que ele deixou para todos nós. De educação para com os nossos filhos, de honestidade e trabalho. Carinhoso que só, deixou um pouquinho dele com cada um de nós e isso será eterno”, disse Margarida, emocionada.
O que fica, depois da partida física, é o bem e o perfume do que foi plantado por aqui. E Margarida sabe que seu João fez um lindo jardim para ela.

() Gabriela Gomes é publicitária e representante comercial do A Notícia