Desde 1984
Márcio Passos
12 de julho de 2019
Tempo escorrendo entre os dedos
Burro o político que trata o eleitor como beócio e ainda acredita que o que se faz (ou tenta fazer) no último ano de governo tem peso e valor para reeleição ou eleição de sucessor. Se no passado essa crença valia, agora não vale mais e o eleitor tende a riscar do mapa aquele político que o tenta enganar com o faz de conta de sempre do último ano de governo.
Político honesto e bem intencionado precisa ter capacidade e resignação para fazer uma parada na metade de seu governo e apurar o que se fez (ou deixou de fazer), conferir a avaliação da opinião pública sem se deixar contaminar pelo puxa-saquismo oficial e reajustar a rota para terminar com uma aprovação que garanta a reeleição ou eleição do sucessor.
Grande problema é que a maioria gosta de se deixar enganar. Uma ou duas dúzias de assessores e correligionários ocupantes de cargos públicos de livre nomeação se prestam ao papel de bobos da corte e integram a corte dos que só aplaudem e acham o governo o melhor dos mundos. Povoam as redes sociais com elogios de conveniência e provocam reações populares e de oposição que acabam piorando a avaliação de seus chefes políticos.
Estamos iniciando a segunda parte do terceiro ano dos governos municipais e ainda tem prefeito muito mal avaliado se achando a cereja do bolo porque todos que o encontram elogiam. Infantilidade política digna de dó. Primeiro, porque ninguém para um prefeito nas ruas para reclamar de seu governo, pois os que o fazem apenas bajulam e elogiam num faz de conta cômico. E, segundo, porque ainda não inventaram instrumento técnico melhor do que a pesquisa para apurar o sentimento da opinião pública e a maioria deles morre de medo dela.
Na gestão pública, principalmente, nos dias de hoje, o faz de conta só vale para enganar os dois lados. É preciso ter coragem para avaliar a realidade política do governo, capacidade de gestão para corrigir os erros e compromisso político para buscar melhor avaliação positiva da maioria da população e não apenas do grupo da cozinha.
Particularmente, torço para que todos façam um bom governo, independentemente das cores partidárias. Um governo bem avaliado é bom para o político e melhor ainda para a população. Alguns, no entanto, preferem ficar na irresponsabilidade política do faz de contra. E vão se dar conta da burrice só no final do ano que vem, quando as urnas forem abertas e mostrar que a avaliação não era bem assim.
Ainda há tempo para mudar, corrigir o rumo e melhorar a avaliação que, na realidade política atual, está boa para apenas alguns poucos e raros prefeitos. O tempo passa e não volta, e as oportunidades começam a escorrer entre os dedos.

() Márcio Passos é jornalista e fundador do A Notícia