Desde 1984
PontoeVirgula
24 de maio de 2019
Para não perder o futuro
"É mais fácil mimeografar o passado que imprimir o futuro". A partir desse verso de Zeca Baleiro, inicio uma reflexão. Para produzir o caderno especial dos 35 anos do jornal A Noticia, a equipe da editoria debruçou-se sobre os arquivos do jornal e dos registros da cidade. Tive a oportunidade de ler e reler fatos da história de João Monlevade e que me que me fizeram pensar sobre a cidade que tivemos e a que temos hoje.
É ridículo comparar os incomparáveis, como contextos e tempos diferentes. Mas o exercício pode servir para alguma coisa. Ao menos, para uma reflexão que nos apontem caminhos a seguir no futuro.
Quando reli que João Monlevade já teve duas salas de cinema, com uma população muito menor que a dos 80 mil atuais, penso com tristeza, que a cidade piorou. As pessoas tinham mais acesso à cultura naquela época, do que hoje em dia.
Houve um tempo, fim dos anos 1980, em que grupos de teatro amadores dominavam a cena e agitavam opiniões com montagens quase profissionais e que lotavam o anfiteatro do Centro Educacional. Vale lembrar que os próprios artistas escreviam, produziam e encenavam as histórias. Concursos literários com boas premiações, Festivais da Canção, Feiras da Paz, shows e exposições, fervilhavam, movimentavam a economia e entusiasmavam as pessoas. Um disco ao vivo, "O melhor dos Festivais" foi gravado no Estádio Louis Ensch.
Fora as oportunidades para os iniciantes, cantores de sucesso da época faziam shows frequentemente em Monlevade. Lobão, Biquini Cavadão, Chitãozinho e Xororó, Roberta Miranda, entre outros, que dominavam as paradas de sucesso, lotavam o antigo Campo do Flamengo. Hoje, não há nada disso. Os grandes shows são poucos.
Foi se o tempo em que Monlevade se orgulhava de ter patrimônios, desenhados pelo engenheiro Lúcio Costa, antes mesmo dele executar a construção de Brasília. Havia um atuante Conselho Municipal para esse fim. Um desses prédios, o da Escola Estadual Santana fechou, está caindo aos pedaços e, em que pese, seja de responsabilidade do Estado, ninguém faz ou fez algo para estancar o processo de arruinamento.
Esquisito pensar que já tivemos os mais badalados bailes carnavalescos, que já tivemos escolas de samba, blocos na rua e que, hoje, somos uma cidade triste no carnaval.
Monlevade, salvo algumas proporções, era muito melhor nos anos de 1970 - 1980, do que é hoje. O maior acontecimento na cidade, nas últimas décadas, foi a vinda das universidades públicas. É bom limpar a lagrima nostálgica. Vale relembrar passado, nesse caso, apenas para não perdermos o futuro de vista.

() Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação