Desde 1984
Cotidiano
26 de abril de 2019
A bagagem
Seu Jorge sempre foi um trabalhador. Estudou até a quarta série, mas se formou mesmo foi na lida, no trabalho no balcão do seu armazém, por mais de 60 anos. Sempre simpático, seu Jorge é do tempo da caderneta e do fiado, sem assinatura ou promissória, muito menos consulta ao SPC, só na palavra do freguês mesmo.
Criou os quatro filhos com a renda do armazém e todos se formaram na faculdade. Almoçava diariamente sua marmita, preparada com muito amor pela esposa querida. Contava sempre anedotas aos clientes e presenteava crianças com pequenos pedaços de doce de leite caseiro. Nos feriados e finais de semana, sua casa ficava cheia, com seus filhos, noras e netos. Era quando a roda de viola varava noite adentro, embalando as histórias do seu Jorge.
Sempre cordial, atendia a todos no armazém com a mesma dedicação, atenção e cuidado. Os pedintes lhe chegavam todos os dias, e ele jamais deixou de lhes oferecer um bom sanduiche de salame. Nascido e criado na periferia da cidade, seu Jorge construiu sua vida ali, na simplicidade do trabalho e do amor ao próximo. Até o seu último dia.
Senhor Matheus cresceu num bairro mais chique, próximo ao centro. Filho de Libaneses, ele teve 3 esposas, e se separou de todas elas, por falta de entrosamento. Seus filhos, criados em berço de ouro, se mudaram ainda jovens para a cidade grande, e o visitam muito pouco, apenas no Natal.
Proprietário de uma rede de lojas, ele contabiliza cada centavo, inclusive quantas xícaras de café cada funcionário toma. Pelo pouco, perde a razão, a educação e o crivo, e jorra enxurradas de palavras agressivas aos seus tantos subordinados.
Econômico sem igual, senhor Matheus não ousa viajar para conhecer o novo neto, porque, segundo ele, a passagem está cara demais. Jamais fazia doações e muito menos atendia os mendigos, que ficavam na calçada da igreja. Ele ignorou o diagnóstico diabetes, ignorou as pessoas e os sentimentos delas. Até o seu último dia.
O tempo passou para os dois. Seu Jorge e senhor Matheus são homens de uma outra época, onde tudo era diferente. Muita coisa mudou, mas os verdadeiros valores são e serão sempre os mesmos.
O que cada um deixou, ficará por aqui, e seu Jorge, nem o senhor Matheus terão bagagens para carregar. Levarão apenas a vida que viveram, os sentimentos bons que distribuíram e a coleção de corações que conseguiram tocar. Hoje, foram enterrados no mesmo cemitério, sob o mesmo badalar fúnebre da igreja. E não há bagagem.

() GABRIELA GOMES é publicitária e responsável pelo setor comercial do jornal A Notícia