Ponto e Vírgula
18 de abril de 2019

Quem te fez tão bom assim?

O Juiz da Vara Criminal de João Monlevade, Rodrigo Braga Ramos, ganhou holofotes pela forma como tratou uma testemunha em uma audiência. O monlevadense Renato Dias, de forma educada, ao ser inquirido pelo promotor, pergunta se pode contar “dois fatos que ocorreram”. O juiz interfere, dizendo-lhe que responda somente à pergunta “do doutor”. Até aí, tudo dentro dos padrões de audiências.
Porém, quando a testemunha tenta dizer que estava fazendo exatamente isso, o juiz dá um murro na mesa e explode: “Não discute comigo não. O senhor acha que o senhor tá onde? O senhor sai daqui preso também. Quem impõe ordem aqui dentro sou eu. Não é o senhor não. Dentro da sua empresa o senhor manda. Na sua casa, o senhor manda. Quem manda aqui sou eu”. A testemunha, sem levantar a voz, diz: “Não estou discutindo”. Mas o que ouve de volta é que deveria usar de “sarcasmo”, e que deveria sentar-se direito. Tudo isso, diante de um homem idoso, um pai, que pediu para contextualizar uma resposta, após ser indagado. Atitude inaceitável e que mostra a pseudo superioridade de quem se coloca acima dos outros.
O exemplo a não ser seguido é apenas mais um caso de desamor e de desrespeito com o próximo. Guardadas às devidas proporções, por conta de atitudes inexplicáveis como essa, um militar disparou 80 vezes contra um carro de família e matou o pai, na frente da mulher e do filho.
Noutra comparação, também a serem resguardadas as proporções devidas, por julgar-se acima do bem e do mal, um segurança de uma loja matou um jovem asfixiado, após dominá-lo no chão, onde cidadãos assistiram perplexos a mais essa cena de terror em nossos dias. O despreparo e o desequilíbrio para lidar com o outro chegaram a extremos inaceitáveis em nossos tempos.
O ser humano tem perdido as estribeiras por jugar se melhor que os outros. Não é exercício profissional difamar, agredir, desmoralizar, só para mostrar quem é que manda. E quantas vezes, não agimos assim também? Quando somos motoristas e queremos ultrapassar o carro da frente, ainda que pela direita. Quando não damos preferência aos pedestres. Quando tratamos mal o atendente ou fingimos não ver andarilhos, mendigos e necessitados.
Quantas vezes somos arrogantes com os que julgamos pequenos? Quantas vezes nos colocamos melhores que os outros por racismo, condição sexual, situação financeira ou até pela roupa que vestimos? É preciso reiventar de novo o amor, como escreveu Vinicius de Morais. O trato com o próximo, o respeito. Quem é melhor que alguém? E por que nos julgamos tão bons assim? Que nessa Páscoa, tempo de reflexão e de mudanças, possamos avaliar nossas ações e posturas. Afinal, não tem ninguém melhor que ninguém. Somos iguais e todos merecem ser tratados com igualdade e respeito. Abaixo à ditadura dos que se sentem acima dos outros, mas não passam de mais um na multidão.

() Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação