Desde 1984
Cotidiano
22 de março de 2019
Rara Teresa
Teresa sempre foi uma menina de coração puro. Criada com os avós, após a morte da mãe, cresceu numa casa simples, rodeada de parentes e cheia de afazeres.
Na escola, cedia o lugar da fila para os mais apressados, oferecia a merenda àqueles que não levavam lanche, e dividia o guarda-chuva com os amigos nos dias de tempestade.
Para Teresa, essas situações eram naturais, tão óbvias como respirar ou sorrir. Gordinha, de bochechas rosadas, Tereza sempre foi uma criança feliz, mesmo quando recebia apelidos zombadores ou quando algum colega a empurrava na saída da escola.
Naturalmente, ela tentava se proteger, mas jamais revidava. Para ela, atitudes assim não faziam sentido.
Teresa tinha satisfação em ajudar a avó a lavar o quintal, colher frutas no pomar, mesmo se arranhando nas árvores, ou ajudar o avô a juntar as vacas, na hora da ordenha. Sem que a pedissem, sem obrigação.
Com a casa cheia de primos, especialmente nas férias e feriados, ela não se incomodava em ceder o seu quarto e dormir no sofá, em ser a última a tomar banho, nem tão pouco a ter que varrer a casa, infinitas vezes.
Quando foi crescendo, Tereza começou a se sentir diferente, e perceber que suas atitudes, tão naturais para ela, causavam estranhamento nos outros. Na faculdade, era a única do grupo a se preocupar com o trabalho, onde todos pontuavam. Quando começou seu primeiro estágio, recebia tão pouco, que nem conseguia pagar as passagens, e caminhava mais de hora, para chegar ao trabalho.
Ela não entendia como o patrão não pensava na sua segurança, nem tão pouco na sua satisfação. Ele queria apenas números, metas, sem qualquer motivação.
Teresa percebia que as pessoas queriam sempre mais. Mais espaço, mais tempo, mais visibilidade, mais atenção, mais dinheiro, sem se preocupar se isso afetaria alguém ou o prejudicaria. E como esse alguém estava lidando com isso, paralelamente à sua própria vida.
Ela não compreendia as atitudes dos vizinhos, que jogavam entulho no terreno da sua casa, nem quando a avó tinha que ir em pé no ônibus, pois ninguém sedia o lugar a ela. Ela se assustava com a naturalidade em que as pessoas lhe inventavam mentiras, e acreditavam tanto nelas, que as faziam parecer verdades.
Teresa desconhecia os motivos da vaidade e da intolerância, que transformavam as pessoas e as faziam sapatear em cima de qualquer um, para se satisfazer.
O outro, para Teresa, sempre foi o protagonista. Sem pressa, ela segue sua vida abrindo portas, pisando em poças d’água e abraçando os desafios. Cuidando de tudo e de todos, dentro das suas possibilidades, está sempre a postos para ajudar.
Uma pena que a arte de se colocar no lugar do outro, é tão rara, como a raridade de Teresa.

() GABRIELA GOMES é publicitária e responsável pelo setor comercial do jornal A Notícia