Ponto e Vírgula
8 de março de 2019

O carnaval é muito maior que Bolsonaro

Enquanto o Presidente da República, Jair Bolsonaro, passa vergonha internacional por postar vídeo explícito em sua conta do Twitter para criticar o carnaval, a Mangueira, grande campeã desse ano, engrandece-se ao mostrar ao mundo, as histórias que não estão nos registros oficiais. O enredo da minha escola de coração, falou dos milhares de heróis desconhecidos e outros que foram silenciados pelo descrédito, pelos homicídios e massacres. Entre esses, a vereadora Mariele Franco, assassinada há cerca de um ano e a quem o Bolsonaro adora odiar.
Em seu enredo, “História pra ninar gente grande”, assinado pelo carnavalesco Leandro Vieira, a Mangueira mandou um recado ao presidente e à direita de viseira que tenta gritar contra o carnaval: vocês são grãos de areia frente ao oceano. Justamente a comunidade da Mangueira, que já foi tão massacrada pelo tráfico de drogas, ganhou um carnaval com um grito de Justiça. Exatamente no momento em que o presidente quer jogar a opinião pública contra a festa mais popular do país.
A verdade é que o Brasil e o carnaval são muito maiores que Bolsonaro e sua trupe de mediocridades. Não se pode proibir o carnaval porque essa é a festa do povo. Festa, de origem na Idade Média e que sempre serviu para igualar nobres e plebeus, no mesmo espaço público: a rua. É lá que o povo expõe seu pensamento e por isso, os gritos não podem ser calados. E foi isso que a Mangueira levou para a avenida Marques de Sapucaí.
Carnaval não é apologia ao sexo, ao uso de drogas ou a outros exageros. Uma festa que teve a pequena Stela Valentina, de seis anos, cantando com Alceu Valença em São Paulo que teve Ivete Sangalo parando trio elétrico para ajudar uma ambulante, após ela ter seu isopor de cerveja quebrado uma festa que traz turistas do mundo inteiro ao Brasil, não pode ser generalizada por um ato obsceno, como fez o presidente. Urinar na cabeça de alguém em público é ato violento ao pudor e deve ser punido. Infeliz do presidente e seus apoiadores míopes que fizeram um recorte para rebater a festa de maior expressão do país.
Não adianta o poder público querer impedir a alegria popular. Lembrando Chico Buarque, “como vai proibir quando o galo insistir em cantar?” O Carnaval de rua de Belo Horizonte, um dos melhores do Brasil atualmente, é fruto dessa resistência. Ele ganhou força a partir de 2009, quando o então prefeito Marcio Lacerda proibiu a ocupação dos espaços públicos na capital. O ato de censura revoltou o povo que resolveu botar os blocos nas ruas de forma espontânea e democrática. Mais carnavalesco impossível.
Ainda não há um balanço oficial, mas a estimativa é a de que a festa tenha movimentado mais de R$6 bilhões e gerado 23 mil empregos neste ano. E isso, porque até domingo (10), dezenas de blocos ainda arrastam multidões pelas ruas da capital. Só louco vê que a folia faz mal para a sociedade.

() Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação