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Cotidiano
8 de fevereiro de 2019
Quanto vale?
Quanto vale o silêncio das sirenes que não soaram quando deveriam? E os alarmes, as rotas de fuga, os levantamentos estatísticos, quanto valem? Não há mais valor que a vida, que os sonhos, que o futuro que hoje está soterrado em lama tóxica e em escombros retorcidos...
Muitas famílias não terão a mesma alegria nas noites de Natal, muitos filhos não terão a presença dos pais na formatura ou no casamento. Muitos viúvos não sentirão o sabor do bolo caprichado que a esposa lhes fazia, e muitas esposas não terão as gargalhadas barulhentas dos maridos nas festas da família.
Crianças vão crescer orfãs, de pai ou de mãe, ou dos dois, e aos poucos vão se esquecer do som das suas vozes ou dos detalhes dos seus rostos. Pais estão enterrando prematuramente seus filhos, que há pouco estavam cheios de vida, e hoje são estatísticas dessa tragédia.
O diretor mais bem sucedido da empresa está sob a mesma lama que o humilde agricultor. Altos cargos e salários, saldos bancários ou grandes imóveis, sem vida, não tem valor algum.
O vazio é assustador, e imensurável. Noivas não poderão mais se casar, e os planos da lua de mel, tão sonhados, não vão acontecer. Os sitiantes ribeirinhos não vão mais apreciar suas plantações, nem tão pouco seus animais, conquistados com tanto esforço e trabalho árduo.
Quanto vale a beleza extinta? Quanto valem as noites em claro e os terrores do trauma? Não há valor para tamanha dor e desespero, mas tudo isso nos traz uma lição.
Mesmo que óbvio, viver o presente nunca foi tão necessário. O presente hoje, nessa data, nesse instante, ainda nessa manhã. O abraço mais demorado no filho antes dele sair para escola. A prosa com a avó já idosa, que sempre conta os mesmo casos, mas que tem ternura na voz. Os encontros com os amigos, raros infelizmente, mas proveitosos e felizes.
Se conhecêssemos o real valor do hoje, certamente o aproveitaríamos mais. Não sofreríamos tanto por ansiedade, pelas contas, pelos desafios que virão, pela viagem programada, pelas escolhas alheias, por coisas que não conseguimos, e nem precisamos controlar. “A cada dia basta o seu mal" ( J. Cristo ).
Dessa vida, levamos apenas o que fomos e temos apenas o presente, para sermos melhores com nós mesmos, e para com os outros. Se essa tragédia de Brumadinho não lhe tocar o coração, e não lhe avivar os sentimentos, há algo de errado por aí. Quanto vale a vida vivida até aqui?

() GABRIELA GOMES é publicitária e responsável pelo setor comercial do jornal A Notícia