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Cotidiano
25 de janeiro de 2019
Refém digital
A onda das redes sociais invadiu a nossa praia, e ninguém consegue evitar uma exposição, mesmo que mínima. Em alguns casos são verdadeiros books fotográficos, com direito a legenda romântica (e longa), vídeos e até descrições de cheiro e sabor. Sem falar nos banners com mensagens de autoajuda e frases de efeito.
As redes sociais são muito úteis, principalmente para negócios e para contatos entre as pessoas que moram distantes. Mas, como tudo na vida, existe uma linha tênue entre o exagero e o sensato, o ridículo e o seleto, isso sem questionar beleza ou gosto, porque essa questão não se discute.
O problema é que muitos se tornaram reféns dos likes, das fotos, e da necessidade de aprovação nas redes sociais, vivendo verdadeiros teatros virtuais, e passando uma imagem de vida fantasiosa. Os amigos e parentes mais próximos conhecem uma pessoa nas redes e a mesma lhes parece completamente diferente no dia a dia.
As fotos chegam a ficar irreconhecíveis depois dos infinitos filtros e modificações, as viagens ostentação, muitas vezes, são incoerentes com o padrão de vida real das pessoas, e a justiça já as utiliza como prova para cobrar os caloteiros.
A comunicação, desde os seus primórdios, fez com que a sociedade evoluísse. Desde os primeiros jornais, os antigos rádios amadores, passando pelas revistas, pela televisão, e chegando a internet. Todos os veículos de comunicação, no seu tempo, contribuíram para que a população ficasse melhor informada, mais consciente e mais conectada com as notícias e acontecimentos mundiais.
A internet intensificou isso tudo, e as redes sociais são como grandes praças públicas, onde uns se expõem muito, outros um pouco menos, mas a grande maioria está por lá. Juízes e réus, amadores e profissionais, justos e rebeldes, estão por lá.
O estranhamento aos mais exagerados é assunto comum, pois as pessoas estão se revelando através dos perfis digitais, revelações essas muitas vezes assustadoras e inesperadas.
A necessidade de mostrar ao mundo o mais novo corte de cabelo, a festa de arromba do final de semana, a viagem ao resort (parcelada em 24x), a cintura cada vez mais fina na academia, as unhas recém pintadas, os músculos, o carro novo e até o passeio do cachorro são a novela da vida real que assistimos todos os dias.
Não há quem não goste (com raras exceções) de alguns minutos diários nas redes sociais, mesmo sem curtir ou comentar, muitos estão por lá quase que anonimamente, observando a vida alheia e produzindo suas próprias opiniões sobre as postagens. E são essas opiniões que crescem, engolem a verdade, e seguem por caminhos sem volta, onde um mente, o outro acredita (ou não), mas que todo mundo opina sobre tudo e todos.
Já somos reféns de dificuldades diárias, que fazem parte da vida, e das quais não podemos escapar. Seja no trabalho, nos afazeres domésticos, nas relações familiares, nas amizades, no nosso amor próprio, nas dificuldades financeiras, na baixa autoestima. “Basta a cada dia o seu próprio mal”, não criemos outros.
A internet nos traz infinitas oportunidades positivas, cabe a cada um, utilizá-las a seu modo, e não se tornar mais um refém das redes sociais.

() GABRIELA GOMES é publicitária e responsável pelo setor comercial do jornal A Notícia