Desde 1984
PapoAberto
21 de dezembro de 2018
Bento veio me salvar
Utilizar o espaço da última coluna do ano para falar do nascimento de um filho sem cair em clichês e lugares comuns de pai coruja não é tarefa fácil. Sendo assim, começo e permeio meu texto de hoje com uma sentença: “Bento veio me salvar”. Sim, isso mesmo, Bento, meu filho, veio me salvar.
Já aviso aos afoitos que ele não veio me salvar de enrascadas, dívidas, enfermidades ou tristeza profunda. Bento veio me salvar de mim mesmo. É isso. E ele o faz a cada segundo já no início de sua missão, ao me fazer enxergar que ainda existe em mim um homem que se emociona, que se encanta com a beleza do humano e da vida, mesmo diante de tanta podridão e da dura realidade.
Bento veio me salvar porque me faz menosprezar boa parte de minha intolerância com o que julgo errado no outro, mesmo sabendo que por boa causa e luta justa. Ele me faz tentar enxergar luz e boa energia onde, talvez, só procurasse enxergar egoísmo, egocentrismo, vilania e tédio. Fatores que, infelizmente, brotam em nossas esquinas.
Bento veio me salvar porque me mostra que há algo mais rico e frutífero que travar batalhas pessoais, nesse nosso voraz cotidiano de ocupação de espaços. O coração continuará sedento por luta justa, assim como o dele também o será, porém, com a leveza e a felicidade necessárias aos bons soldados. Bento veio me salvar porque me mostra que, a cada instante, a cada sorriso sonolento, olhos vivos nos meus, resmungo, acordar e adormecer, é preciso ter, antes de mente vibrante, de olhar atento e de razão aguçada, o coração bem aberto. Afinal, sem amor não se dá um passo. Não se respira. Não se faz. Não se alcança as vitórias da vida. E quais são as verdadeiras vitórias da vida, senão um sorriso com 11 dias?
Claro, a serenidade despertada por Bento não me fará abandonar a missão de mostrar os podres planos que se planejam às escuras, às costas e à custa de quem mais sofre, arquitetados pela pilantragem vigente do ser humano. Mas até nisso sua aura de paz me faz ajudar.
Sim, afirmo com plena certeza, mesmo tendo várias delas derrubadas no último dia 10, de que Bento veio me salvar.

() Luiz Ernesto é jornalista, escritor e subeditor do A Notícia