Cotidiano
7 de dezembro de 2018

Papel de Pai

Léo nunca pensou em ser pai. Nem imaginava que encararia esse papel tão jovem, recém-casado (inesperadamente), e sem qualquer programação ou aviso. Mas aconteceu.
Léo foi pai antes dos 25 anos, e não supunha como sua vida mudaria a partir de então. Ele até achava legal ver a barriga da esposa crescer, mas a paternidade ainda não parecia real.
As contas começaram a aumentar antes mesmo do parto, e para piorar o desemprego chegou junto, e ele se viu sem rumo no meio daquele furacão. Chegaram aos 9 meses assim.
Léo ficou na sala de espera sozinho, angustiado como uma criança que se perdeu no parque. Ele ouviu de longe um chorinho fino, e seu coração acelerou instantaneamente. A paternidade estava nascendo ali.
Segurar aquele ser tão pequenino era um desafio, e um medo grande, nos primeiros dias. O banho, as mamadeiras, as noites em claro pareciam surreais, e ele foi compreendendo que as coisas nunca mais seriam como antes.
Agora ele tinha o melhor emprego do mundo, o de pai. Seu pagamento seriam gostosas gargalhadas babadas, mancha de comida nas roupas e muitos momentos especiais, como os primeiros passinhos e a primeira palavra.
Seu diploma de engenharia, assim como seus inúmeros certificados de especializações estão bem guardados, esperando o momento certo para seu retorno ao mercado de trabalho. No momento, ele tem bons motivos para continuar exercendo seu papel principal.
Em casa, além das tarefas do lar, ele teria uma lista infinita de obrigações diárias, que nunca fizeram parte da sua vida. Ele aprendeu a fazer feira, levar sozinho o pequeno ao pediatra, fazer compressas para abaixar a febre e caretas para ouví-lo gargalhar.
Léo voltou a ver desenhos infantis, a cantar cirandas de roda e cantigas de ninar. Aprendeu a ler rótulos de alimentos e descrições nas caixas dos brinquedos. Espera ansioso a esposa chegar do trabalho para lhe contar a mais nova façanha do pequeno, que é a luz dos seus dias.
Léo engoliu a seco alguns planos frustrados, que agora são pequenos diante da paternidade integral, que ele vive. Aprendeu, sem manual, a corrigir manhas, a ter paciência na hora das refeições e nas infinitas trocas de fraldas.
A paternidade o salvou. Como uma escola em tempo integral, fez daquele jovem um pai de família, repleto de erros e dificuldades, mas também de valiosos acertos e intuições. Transformou os seus dias, os seus planos, o seu futuro. Sua maior recompensa não tem cifra, saldo bancário, ou diploma. Tem nome e sobrenome, e é seu filho. Vivenciar a paternidade em sua plenitude fez Léo desempenhar o seu melhor papel, o papel de pai.

() GABRIELA GOMES é publicitária e responsável pelo setor comercial do jornal A Notícia