Ponto e Vírgula
30 de novembro de 2018

Blackbird


Homenagem aos 50 anos do Álbum Branco dos Beatles

Quando o jovem pianista sentou-se à cadeira do avião que o levaria a Paris, ele fechou os olhos e colocou o fone de ouvidos para ouvir Beatles. Ele sabia que tinha muito o que pensar antes de desembarcar na capital francesa. O jovem iria estudar música em um conservatório da “cidade luz”, mas em vez de euforia, sentia, no peito, uma ponta de angústia abalar-lhe o coração.
Mas o que mais o perturbava, não era o que teria pela frente. O que mais o deixava triste e o fazia abandonar o Brasil por uns tempos, era o desejo de tentar escapar-se de si. Mais precisamente, do desejo de ter conhecido um tio, morto precocemente, anos antes de ele ter nascido.
Desde criança, sempre ouvira a mãe contar-lhe, com um fio de lágrima no canto do olho, a triste história do irmão. O jovem tio, que, aos 19 anos, viajou com os amigos e a família para o litoral, a fim de comemorar um novo emprego. Ele iria para a Itália, trabalhar como mecânico na sede da Fiat. Tudo estava perfeito, mas o imponderável marcou o fim daquele sonho. Ao ver uma menina se afogando, o rapaz não pensou duas vezes em salvá-la. Por ser um bom nadador, conseguiu tirá-la do fundo das águas. Mas, já por estar exausto, não resistiu à correnteza e sumiu no mar, após salvá-la. O corpo foi achado dois dias depois, pelo pai, que não descansou até encontrá-lo.
O jovem pianista não sabia o motivo da fascinação pela história do tio, que era, sem dúvida, seu herói familiar. No avião, que já taxiava na pista, ele ouvia os quatro de Liverpool entoarem clássicos. A mente ia longe, enquanto ouvia Blackbird e esbarrava na memória de seu tio. Imaginava o salvamento da menina e a morte iminente. Enquanto se afogava, o que será que se passou na cabeça dele naquele instante, em que era sugado para dentro do mar?
Agora, o jovem pianista viaja para outro país e tem, no peito, a mesma dor de vida que atingia o tio anos atrás. O pianista não sabe, mas o herói-familiar amava cantar aquela melodia beatle que ele ouvia agora, dentro do avião. A aeronave começou a ganhar os ares e, para trás, Belo Horizonte ia ficando, menos aquela lembrança...
Agora, entre as nuvens, Blackbird já tinha acabado, mas ele resolve repeti-la. Gosta da entonação da voz de Paul, gosta do violão inicial e sente-se em apuros com o refrão forte. Mas, ainda assim, para ele, a canção é uma forma de aconchego. Ele olha para as nuvens abaixo do avião e sonha de olhos abertos com os gestos do tio. Imagina que os dois estão em um piano bar, falando da vida que gostariam de ter vivido e das diferenças do tempo de cada um. Ao som de Blackbird, ele vê o céu de dentro do avião e tem a sensação de que assim, está mais perto dos olhos e do coração daquele que não mais está aqui. Blackbird fly.

() Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação