Cotidiano
23 de novembro de 2018

Um sopro

A vida é um sopro. Tão ligeira, tão fugaz, que vem e vai, e quando se vê, já se foi. Os anos passam voando, e os dias são como instantes, que não conseguimos conter. A vida é breve, e nos faz tropeçar a cada tempestade. Nos joga na cara a sua fragilidade, seu pacote de surpresas, seu peso e sua lei natural. Infelizmente só percebemos o valor real das pessoas quando as perdemos, e não há mais nada a se fazer.
A vida é um instante. E num instante tudo muda, tudo se apaga, não há mais respiração, explicação, condição, movimento algum. Quando percebemos a preciosidade do que foi perdido, é tarde demais. As brigas e a vontade de gritar desapareceram, as birras, as mágoas simplesmente não fazem mais sentido. O jantar a luz de velas, a viagem sonhada, a festa de aniversário, a visita aos avós, o encontro com os primos distantes, o acampamento, a nova receita, planos que não saíram do papel, e se perderam.
Não sabemos o momento, nunca saberemos. Por isso mesmo, deveríamos viver cada dia com a sua intensidade particular, pois podemos estar próximos da linha de chegada.
Aos 90 ou aos 9, menino ou ancião, não há como prever qual será a última dança, a última história engraçada, o último almoço em família, o último abraço ou o último boa noite.
A fragilidade da vida nos estapeia, nos joga na parede e nos surra, com nossas próprias ignorâncias e infantilidades.
Mesmo acreditando que a vida é eterna, e que os laços também, a morte sempre será uma sombra atrás da cortina.
Que possamos sair da janela, e andar pelos caminhos sonhados. Voltar a falar com aquele amigo ou parente, que nos afastamos por motivos banais. Que possamos ter tempo de nos desculpar pela palavra errada, pelo ciúme excessivo ou pela falta de atenção no outro. Que possamos arriscar mais, sem medo do que os outros podem pensar, sem padrões a seguir.
Que consigamos aproveitar melhor o calor do sol, o encanto da chuva caindo, a gargalhada em coro, a família ao redor da mesa, o abraço, o aperto de mão que seja.
Antes que o último nos chegue, que possamos nos antecipar, e viver o hoje, antes que ele se torne apenas um sopro.

() GABRIELA GOMES é publicitária e responsável pelo setor comercial do jornal A Notícia