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PontoeVirgula
16 de novembro de 2018
Dia da consciência
Dia desses conversava com dois amigos quando chegou um outro amigo dos dois. O rapaz, um jovem negro, chegou sorridente, cumprimentou nós três. Tratou algo de que não me lembro com um deles. Antes de sair, fez questão de apertar a mão de nós três e despediu-se, mais uma vez, sorrindo. Foi quando ouvi: “Esse menino nasceu com a cor errada”. Não entendi. “Hã”? Indaguei. “Gente boa demais, educado, fino...”. Mal consegui terminar a conversa, despedi-me e saí perplexo.
Em pleno 2018, ouvir que alguém “nasceu com a cor errada” é o fim. Mostra que estamos no fundo do poço quando o assunto é igualdade racial. Como se existisse uma cor certa para as pessoas. É uma expressão racista, burra e doentia, ainda que dita sem querer.
Na próxima terça-feira (20), é celebrado o dia da Consciência Negra. Se é que consciência tem cor, deveria ser o dia da consciência branca. Para a gente branca repensar seus gestos, seus atos e, sobretudo, suas palavras. Chega de expressões excludentes como “Serviço de preto”, “a coisa tá preta”, “inveja branca”, “mercado negro”, “cor da pele”, “ tenho até amigo negro”, entre tantas outras ditas no dia a dia e que refletem o mais puro preconceito e discriminação racial.
No Brasil, a população negra é a mais atingida pela violência, pelo desemprego e pela falta de representatividade, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).
Para se ter ideia da discrepância étnica, no mercado de trabalho, negros enfrentam mais dificuldades na progressão da carreira, na igualdade salarial e são mais vulneráveis ao assédio moral, conforme o Ministério Público do Trabalho. Ainda de acordo com o Atlas da Violência 2017, a população negra corresponde à maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios.
Mesmo diante das estatísticas, o racismo brasileiro, sustentado em três séculos de escravidão, é minimizado pela “branquitude nativa”. Convivemos com a desigualdade diariamente, mas pouca gente enxerga ou finge que não vê isso. Basta olhar ao redor. A maioria dos negros, infelizmente, não está nas universidades ou mesmo nas escolas particulares ou de ponta. Poucos são os profissionais negros com diploma de curso superior ou exercendo uma função de chefia em empresas. O feminicídio, isso é, o assassinato de mulheres por sua condição de gênero, também tem cor no Brasil, ao atingir, principalmente, as mulheres negras. Segundo pesquisas, no país, de cada 100 pessoas assassinadas, 71 são negras. Fora que os negros compõem a maioria dos presos. As informações tornam-se ainda mais alarmantes, quando observamos que, segundo o IBGE, mais da metade da população brasileira (54%) é de pretos ou pardos. Isso mostra que estamos diante de um imenso abismo racial. Temos que colocar a mão na consciência, seja ela de qual cor, e mudar essa realidade, a partir da mudança de nossas atitudes. A começar pelas nossas palavras.

() Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação